São Miguel do Gostoso-RN

28-29.11.2009 – São Miguel do Gostoso-RN

25 dias para a partida ao Atacama. Como penúltimo treino antes da viagem, eu e a Renata fomos até São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte. Impossível ler o nome dessa cidade no mapa sem ficar curioso para conhecer, não é? O duro é que o lugar faz jus ao nome: é gostoso mesmo. A região é cheia de pequenas cidadezinhas, com direito a crianças soltas pelas ruas, cachorros se coçando na terra da estrada e velhinhos sorridentes que ficam na varanda vendo o mundo passar. A união perfeita entre o mar e o interior. O lugar fica bem na esquina nordeste do Brasil, onde o mar deixa de nos banhar ao leste e passa a ficar no norte. Aqui, para quem está na praia, até o sol muda o lugar de nascer e adormecer. Outra curiosidade da região é que aqui começa a BR101, que andará 4.542 km antes de chegar ao seu final lá no sul. Também, aqui fica o Farol do Calcanhar, o mais alto do Brasil, com 62 metros de altura.

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Resolvemos pegar dois extremos de tipos de estrada nessa viagem. Na ida escolhemos o movimento. A BR101 é praticamente um canteiro de obras entre Recife e Natal. Muito movimento de carros e caminhões o dia todo, não adiantando sair bem cedinho. Ficamos um bom tempo para cruzar Natal. Em alguns trechos, com sol a pino, chegamos a parar em oito sinaleiros em um trecho de menos de 1 km. O cúmulo da sincronização. Os últimos 100 km entre Natal e São Miguel são o contrário. Uma estrada deserta, com bom asfalto e no meio das dunas. Apenas o vento forte e constante impede desenvolver uma média muito alta de velocidade.

Já na volta, no domingo, escolhemos as estradas secundárias. 500 km quase sem movimento, mas muitas curvas fechadas, serras e buracos.

Combinando o passeio da semana passada para o Açude do Boqueirão-PB, com esse de agora para São Miguel do Gostoso-RN, andamos 1400 km em dupla– 470 km por dia. Isso nos deixa muito tranqüilos para a viagem ao Atacama, pois é praticamente a metade do que faremos na Viagem ao Atacama no trecho em que formos os dois. Outra coisa interessante é que, entre Osvaldo Cruz-SP e Valpararaíso-CH, não esperamos pegar nem o grande trânsito/obras da BR101, nem as estradas truncadas/esburacadas do sertão, a não ser – é claro – a subida dos Andes.

A média desta viagem foi de 60 km/h, incluindo todas as paradas para tomar café, cruzar cidades, encher o tanque ou descansar do grande calor que fazia. Em geral faço média de 75 km/h em passeios curtos. Acho que o ritmo foi exatamente o que vamos fazer em algumas partes da Viagem ao Atacama, pois uma coisa é passar um dia andando de moto, outra coisa completamente diferente é passar 40 dias. Vamos parar para descansar, conhecer as pessoas, tirar fotos e trocar impressões. De nada vale correr a manhã toda para depois ficarmos trancados em um hotel. Estamos saindo em viagem para aproveitar a moto, não esqueçamos. Muitas vezes eu me esqueço disso, transformando os passeios em grandes maratonas. Quero ver se na viagem me lembro o tempo todo disso: o importante é curtir o caminho, não o destino. Que as paradas sejam vistas por todos – mas principalmente por mim! – como momentos importantes e não como empecilhos.

Nós havíamos nos programado para parar a cada 150 km, mas não conseguimos cumprir nem na ida nem na volta. Na ida paramos a cada 200 km porque na estrada em duplicação não havia lanchonetes ou postos. Se tivéssemos a companhia de outras motos poderíamos ter parado em qualquer lugar, mas não nos sentimos à vontade sozinhos. Já na volta foi o contrário. O calor e a estrada travada com várias serras esburacadas nos cansaram bastante no meio do dia, nos forçando a fazer uma das paradas com apenas 100 km percorridos. Mas depois de jogar água na cabeça, estirar as pernas e conversar um pouco, nos animamos novamente, continuando a viagem sem problemas.

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A Renata “se portou” muito bem ficando dois dias inteiros longe do bebê. Que bom que ela sabe – ao mesmo tempo – ser atenciosa com ele, mas também reservar um espaço para o casal e para a sua individualidade. Isso, acredito, será muito importante quando o bebê estiver crescendo porque provavelmente ela saberá mesclar perfeitamente a atenção com a liberdade que ele precisar.

Tudo na maior tranquilidade com a moto e os acessórios. Foi a primeira vez que usei os alforjes nesta moto, mas a fixação com elásticos e fios de cobre os deixaram bem firmes. Gasto cerca de 5 minutos para prendê-los no início do dia, mas vale a pena. Desta vez também consegui prender bem a base da bolsa de tanque, que não ficou sambando. O tanque vazou um pouco a gasolina pela boca. Pode ter sido o respiro impedido pela bolsa de tanque, mas provavelmente foi porque coloquei muita gasolina. A bala clava não aprovou porque embaça muito os óculos. Os 50 CV da XT660 têm que ser bem administrados nas regiões serranas quando se anda carregado de bagagem e garupa. O consumo sobe, a velocidade média cai e o cansaço aumenta. Mas para quem, como eu e a Renata, já fez várias viagens com uma moto de 30 CV, essas pequenas dificuldades são o paraíso na terra.

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Deixando um pouco de lado a estrada, aproveitamos muito a tarde do sábado em São Miguel do Gostoso-RN. Conhecemos algumas de suas atrações, conversamos com o pessoal, descansamos na rede, descobrimos comida de qualidade, tiramos fotos, admiramos a lua, acompanhamos o caminhar do sol, nos banhamos no mar e deixamos nossos passos marcados na areia.

Claro que esse texto deveria ter sido muito mais sobre Gostoso do que sobre a viagem, mas com a iminência da Viagem ao Atacama, é impossível mudar o foco.

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A moto está, neste momento, na revisão final para a Viagem ao Atacama. Vamos trocar as pastilhas de freio, cabo do acelerador, corrente, kit de tração, óleo de motor/freio/bengala, fluido de arrefecimento, vela, pneus e câmaras de ar. Isso sem contar o aperto geral, lubrificação e uma olhadela na parte elétrica. Na quinta-feira vou até João Pessoa-PB em uma viagem a trabalho. Serão 200 km importantes para verificar a moto revisada na estrada. Depois ficarei esperando 20 dias para a grande partida, resolvendo apenas alguns detalhes administrativos como brindes, carteira de vacinação, seguro carta-verde e renovação do seguro da moto.

Foram 15 meses de preparação. Neste tempo fizemos um bebê, detalhamos o percurso, compramos uma moto, trabalhamos para conseguir o dinheiro para tudo isso, lapidamos um grupo para a viagem e armamos toda a logística de passagens, treinamento de babá e combinações com meus pais para deixarmos as crianças por lá enquanto viajamos (Gabriela, tudo bem que você não quer mais ser chamada de criança aos 13 anos de idade, mas é força do hábito…).

Agora é só esperar o tempo passar…