Motorcycle Graphics – A Arte e o Motoqueirismo

Dizem que a arte é incapaz de expressar a sensação de pilotar uma moto. Isso porque, mesmo que os filmes tragam as imagens e os sons que vemos e ouvimos nas ruas; e mesmo que os livros tragam as ideias e os sonhos que turbilhonam na nossa cabeça; a verdade é que os filmes, os livros, as fotos, as músicas, as esculturas, as poesias e as danças não conseguem transmitir o aroma das florestas, a mudança repentina de temperatura, a vibração do motor, a aceleração nas ultrapassagens, e o equilíbrio tênue que se sente nas curvas, entre a inércia que nos joga para fora e a gravidade que nos puxa para dentro. Além disso, a arte não traz consigo o risco físico, e, portanto, não permite que o sujeito desafie filosoficamente a morte – como o faz em cima de uma moto.

Concordo parcialmente com isso, porque, embora seja verdade que a arte não expresse todas as sensações físicas, é certo que andar de moto não é uma experiência unicamente corporal. Andar de moto tem também dimensões sociais, políticas e psicológicas, que são muito bem representadas pela arte, como o enfrentamento às autoridades, as roupas erotizadas, a solitude do piloto, o conflito entre os usuários das vias, e o companheirismo na estrada. Tanto isso é verdade que há vários livros e filmes muito legais sobre a experiência de andar de moto, como, por exemplo, aqueles que comentei no texto A Garota e o Selvagem. Isso sem contar que só a moto em si já é um objeto de arte, o que a transforma em um modelo perfeito para quadros e fotografias, o que a transforma em um objeto perfeito para o design, o que a transforma na inspiração perfeita para músicas e poesias e danças.

O que eu mais gosto da arte, no entanto, não é a sua capacidade de representar o mundo para quem não pode vivê-lo; como quando alguém curte a foto de uma estrada legal pela qual nunca passou. O que eu mais gosto da arte é o seu total descompromisso com as soluções fáceis e pobres. A missão do artista não é encontrar soluções, mas sim compreender a realidade em toda a sua complexidade. E é isso que, embora não seja um artista, tento fazer no meu gabinete enquanto imagino um novo seminário, rascunho a estrutura de um texto, ou quando crio um novo caminho para essa eterna linha de estudos. Jogo todo o material na mesa, misturo com as minhas experiências de rua, solto só um pouco da imaginação, e então tento criar o maior número possível de pontos de vista para os fenômenos que formam o mundo das duas rodas. Claro que depois os resultados terão que ser enquadrados em uma estrutura formal, lógica e ordenada – mas não no início. E a arte sempre é bastante inspiradora em todo esse processo.

Mas é preciso tomar cuidado com esse pêndulo que oscila entre o caos e a ordem. Pois o caos pode ser destrutivo. A ordem pode ser aprisionadora. O caos pode ser criativo. A ordem pode ser criadora. É preciso saber navegar entre o caos e a ordem, adorar Apolo e Dionísio, conviver entre as humanidades e a tecnologia. A arte nos ensina a aceitar esse eterno jogo entre o caos e a ordem. Na arte, o caos criativo é a matéria prima de uma futura obra ordenada, que por sua vez inspirará um novo caos, até que nova ordem apareça. O mesmo acontece nas revoluções tecnológicas, quando as velhas máquinas já não nos servem mais e novos inventores criam infinitas novas soluções, até que esse caos tecnológico convirja para apenas algumas tecnologias maduras. O mesmo ocorre na turbulência social que sempre surge para provocar as novas leis que nos ordenarão de forma mais razoável para o nosso tempo. O mesmo ocorre na pesquisa filosófica, onde se estuda aparentemente sem rédeas até que nova teoria desponte naturalmente, trazendo consigo pelo menos uma modesta nova compreensão das coisas.

Isso me faz lembrar uma frase que o Milan Kundera, autor que eu gosto muito, certa vez escreveu para fazer uma crítica a alguém – embora eu ache que neste nosso contexto a frase seja um elogio. Parafraseando, seria algo assim: “As obras filosóficas são expressões apolíneas de um êxtase dionisíaco”. É por aí mesmo. Há todo um caos criativo durante o estudo e o rascunho, mas depois tudo é organizado na construção de bancadas, na realização de experimentos, no desenvolvimento de modelos computacionais, na apresentação de seminários e na escrita de livros. Após o término desse ciclo, exatamente como na arte, esses trabalhos irão inspirar o caos criativo em outras pessoas, que por sua vez buscarão certa ordem em suas obras acadêmicas, que então irão provocar o caos em outrem, e assim até o infinito.

Pena que não há muitos livros de arte sobre as motos e sobre as bicicletas que nos inspirem a viver nesse processo. Mas ainda bem que volta e meia aparece um maluco que consegue publicar algo interessante. No início deste mês foi lançado o livro Motorcycle Graphics, de Gary Inman, que traz uma coleção de 30 artistas que usam a arte para expressar o tribalismo e a subcultura das motocicletas – sempre em superfícies 2D. Cada seção vem com uma pequena biografia do carinha e então uma amostragem do seu trabalho. Muito legal.

Ao todo são 250 páginas, com trabalhos que nos inspiram a compreender, por exemplo, a determinação dos pilotos de competição, a leveza das motoqueiras, a tempestade de informação que nos atinge nas grandes cidades, a infinita diversidade dos indivíduos que andam de moto, a coragem das mulheres que são exatamente o que querem ser, e a individualidade daqueles que andam de moto. Bem… não há palavras para descrever completamente a arte, como também não há palavras para descrever totalmente as sensações físicas de pilotar uma moto. Fique então com algumas amostras do livro. Talvez ele ajude a compreender de onde nós motoqueiros fugimos, o que desejamos, com o que sonhamos, e para onde estamos indo.