Diário da Viagem

Do Sertão ao Desertão
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Logo desenvolvido por Paulo Walraven

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Imagens do deserto.

Tenho pouca, bem pouca, experiência no deserto. Um pouco vem das tardes em que passava caminhando nas dunas da Joaquina nos 10 anos em que morei em Florianópolis. Naquela época de estudante minha principal diversão era andar de bicicleta por toda a ilha ou percorrer todos os costões que dividem as praias. Outra experiência mais recente vem das minhas andanças de moto pelo sertão nordestino.

As dunas são pequenas e o sertão não tão deserto assim. Mas a minha imaginação complementa tudo isso. Só pode ser essa a explicação, porque mesmo sem a experiência tenho um monte de imagens do deserto em minha mente. Algumas são criações fantasiosas frutos da minha expectativa do Atacama, outras devem vir dos livros e filmes.

Foi a minha geração de 69 que começou a viver a transição entre os adolescentes que vagavam soltos pelo mundo e os de hoje que crescem dentro dos condomínios. Eu vim de uma cidade pequena, mas que não tinha cultura rural a não ser para quem trabalhasse diretamente no campo. Cheguei a brincar de pião e búrica. Vagava a cidade toda de bicicleta. Mas também brincava de video game, assistia video cassete, programava computadores e passava tardes e tardes na piscina do clube da cidade. Bibliotecas, videogames, computadores e vídeo, todos conspiram para a diminuição do que chamam de experiência de vida. Mas por outro lado estimulam a imaginação. Quem é mais pobre, o menino que não nadou em um rio ou um que nunca leu um livro? Os dois são miseráveis na mesma medida. Quem é mais rico, o homem que caminha por todo o mundo ou aquele que leva o mundo todo em sua cabeça literária? Os dois são reis.

Mas deixando de lado o mundo da experiência direta – que é sempre tema deste blog de motociclismo – e seguindo para o mundo da imaginação, uma das primeiras imagens de que me lembro do deserto é do filme “O Ladrão de Bagdá”. Nesse filme um aventureiro esperto, destemido e charmoso percorria o deserto em busca do amor e da fortuna. Também me lembro de como ficava muito irritado na semana santa, quando nos obrigavam a assistir àqueles filmes biblícos. Invariavelmente se passavam no deserto. Alguns eu até gostava, como Sansão e Dalila. Havia também os faroestes, que na minha visão eram de três tipos: rurais, urbanos e de cavalaria. Não gosto até hoje dos urbanos ou de cavalaria, cheios de personagens e intrigas. Gostava mesmo daqueles em que o filme todo se passava com poucos pistoleiros solitários percorrendo a imensidão desértica do velho oeste. No máximo havia algumas cenas nas cidades, mas só para os eventuais tiroteiros.

Finalmente, também assistia aos filmes de guerra, sempre envolvendo Rommel de uma forma ou outra.
Não consigo me lembrar de filmes específicos que assistia na década de 70, só o gênero mesmo. Já na década de 80 fica mais fácil. Por exemplo, as aventuras de Indiana Jones, perseguindo tanques no deserto em cima do seu cavalo, sem nunca derrubar o chapéu. Acho que até hoje é o meu filme preferido. Tem também o “O Cavaleiro Solitário”, com Clint Eastwood. Nem é muito no deserto, mas é um faroeste que me fazia lembrar dos antigos. Alguns filmes do Clint Eastwood poderiam ser enquadrados como urbanos, como “Por Um Punhado de Dólares”, mas a figura do personagem principal é tão solitária que é como se estivesse o tempo todo sozinho.

Mais para o fim da década vêm o relançamento de “Lawrence da Arábia” (1989) e as grandes viagens no deserto em “The Doors” (1991). Já era fã da música do grupo e de parte da biografia de Jim Morrison, principalmente quanto à coragem artística, na mistura do rock com poesia e na entrega total em suas performances. Mas foi o filme que consolidou em minha mente a associação entre a liberdade e a independência mentais com o deserto. Assisti o filme na pré-estréia, tendo que lutar pelo ingresso. Foi uma experiência única, de extrema força: a união da música, da vida do artista e das imagens do deserto.

Essa ida ao deserto em busca de sabedoria, liberdade e identidade povoa toda a história da humanidade. Só como exemplo, alguns dos principais símbolos religiosos do mundo fizeram uma peregrinação ao deserto antes de voltarem para liderar o seu povo: Moisés, Jesus e Maomé.

Já a minha relação com “Lawrence da Arábia” não tem um ponto marcante e definido, embora seja bem mais impactante. Devo ter assistido ao filme original várias vezes na minha infância. No relançamento, houve todo aquele auê cult, o que me causou um certo afastamento. Depois comecei a ler o livro de T. E. Lawrence, sua biografia, aprendi sobre o seu amor às motos e a sua completa adoração ao deserto. Quando me vi, estava totalmente fascinado também. Dizem que T. E. Lawrence era homosexual. Esse assunto não me importaria nem um pouco se não fosse sempre usado como argumento para detratá-lo. Só queria dizer que os homens não são medidos pela sua preferência sexual, mas sim pelos seus atos. Mas voltando ao filme “Lawrence da Arábia”, as cenas no deserto, com a música de Maurice Jarre, fazem com que qualquer um fique apaixonado por aqueles grandes espaços vazios.

Como gosto de filmes de aventura, há vários outros com cenas de deserto: “Duna”, “Guerra nas Estrelas”, “Mad Max”, ”Vôo da Fênix”, ”Tempestade de Fogo” e ”O Retorno da Múmia”.

Não dá para deixar de lado todas cenas do Rally Dakar. Vôos em dunas, quebras na areia, ajuda entre os motociclistas, cansaço ao final do dia, júbilo ao final da prova. Um documentário que eu gostei muito foi “Race to Dakar”, em que Charles Boorman – o mesmo do Long Way Round – mostra todas as etapas do Dakar, desde a preparação até a reta final. Devo assumir que embora ache as imagens do Dakar impressionantes, não costumo seguir a competição. Aqui no Brasil temos o Rally dos Sertões, que também enche os olhos com imagens áridas.

Dois filmes apresentam o deserto de uma forma que eu acho que vou ver no Atacama. “Os Três Reis”, filmado no Arizona, Califórnia e México, e “A Quantum of Solace”, último filme do James Bond, filmado no próprio Atacama. Normalmente os filmes sobre o deserto procuram mostrar muitas dunas; são filmados logo pela manhã de forma a pegar as sombras que dão a sensação de profundidade e para diminuir a saturação causada por uma iluminação muito forte. Mas os dois filmes que eu comentei mostram terrenos mais planos e duros, com uma iluminação bastante forte que quase elimina a coloração. Acho que vai ser essa sensação de espaço amplo e de muita luz branca que vamos viver no Atacama.

Já tenho a minha bagagem de imagens. Mas só estando lá mesmo para sentir o impacto na nossa vida que será provocado pelo silêncio, pela ausência de vida, pela grandeza do espaço vazio, pelo céu sem fim, pelo calor estorricante e pela luz que guia e cega. Que venha o Atacama.

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26.12.2009

No final das contas, a verdade é mesmo o que todos dizem por aí. Os imprevistos é que fazem a viagem. O destino é a própria viagem. Não importa muito para onde você vai, nem como. Não importa se tudo saiu como planejado ou se você acabou indo na direção oposta. Talvez tenha até ficado parado. O importante é quem você conhece, para onde os caminhos errados te levam, o que se aprende, o que se esquece e o que se sente.

Se tudo deu certo, acabei de sair há alguns minutos rumo ao Atacama. Penso em ficar 42 dias na estrada, rodando mais de 17.000 km com minha moto.

Agora, onde a viagem realmente me levará? Ninguém sabe.

A moto vai quebrar 100m depois da saída? Vai ocorrer algum acidente? Vou me perder? Serei impedido de continuar a viagem por falta de algum documento? Uma guerra? Invasão alienígena? Ninguém sabe.

Serão os melhores momentos da minha vida? Vou finalmente compreender o sentido de tudo? Vou conhecer o lugar mais bonito do mundo? Ninguém sabe.

O mais maluco é que esse não saber é que é o mais gostoso…

Até mais!

28.12.2009

Passando aqui só para rápidas notícias. Dormimos o primeiro dia em Feira de Santana-BA e o segundo em Montes Claros-MG. Hoje viemos para Patos de Minas-MG para encontrar com o Geraldinho, nosso terceiro companheiro de viagem.

Fomos muito bem recebidos com almoço mineiro na casa do Geraldinho/Lurdinha, depois um café mineiro na casa do Ricardo/Maria Helena. Mais tarde vamos jantar com o pessoal do motoclube deles.

O Geraldinho ainda não sabe se vai seguir agora com a gente ou nos encontrar no meio do caminho. Depende de resolver uns perengues no trabalho.

O certo é que amanhã ou depois estaremos em Osvaldo Cruz-SP, para pegar a quarta integrante do grupo: Renata. Vou aproveitar também para visitar meus pais e dar um último beijo na Gabriela e no Dante (que a Renata trouxe de avião lá de Recife).

Por enquanto andamos 2.000 km. Nenhum susto maior. A moto está perfeita.

Desculpem-me por não respoder aos comentários, mas o tempo da internet é escasso.

Abraço a todos!

30.12.2009

Continuamos aqui só dando notícias rapidinhas…

Chegamos em Osvaldo Cruz-SP. Agora acabou a primeira fase. Andamos 2.800 km e a turma toda já está reunida: Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho.

Dia 02/01 saímos rumo a Santiago-CH.

Abraço a todos! E continuem me desculpando por não responder direito os e.mails, comentários e posts…

31.12.2009
Seguem experiências de muito sucesso, resultados duvidosos e fracassos estrondosos…

SUCESSO. A técnica de lavar as camisetas sintéticas está sendo um totalmente excelente. Estou usando apenas duas camisetas desde que sai. É só estender um varal no quarto do hotel. Na hora de tomar banho, você aproveita para lavar a camiseta e pronto.

MAOMENO. As cuecas também ficam limpas assim. Mas há dois problemas. Primeiro, por serem de algodão, não secam tão bem até o próximo dia. Segundo é que as claras, mesmo limpas, vão encardindo com o tempo. Anotar aí de trazer só cuecas escuras na próxima…

DESASTRE. Acreditei que não precisava lavar as meias todos os dias. Além disso, minha bota é impermeável, mas a calça não. (Para encurtar uma longa história, eu tirei a parte impermeável da minha calça porque não aguentava o calor. Prefiro 1000 vezes ficar com as pernas molhadas do que passar muito calor o dia todo). Bem… mas o negócio é que usar bota impermeável com calça não impermeável faz com que a água entre pelo cano e não saia nunca mais. Essa umidade eterna aliada com a meia não lavada está criando toda série de fungos… hehehe

CORREÇÃO DE CURSO. Mas já estou resolvendo. Peguei um secador de cabelo e joguei dentro da bota. Além disso, faço a bota dormir com jornais dentro dela. Daqui para frente, vou lavar as meias todos os dias e usar aqueles pozinhos de chulé!

Não percam as próximas lições de como cuidar de sua roupa nos próximos dias…

Feliz ano a todos!

01.01.2010

Amanhã começa a segunda fase da viagem. A troupe já está toda reunida: Fábio, Renata, Geraldinho e Wagner.

Sairemos amanhã com calma, indo devagar para a Renata se aclimatar ao ritmo de viagem.

Passaremos uns dois dias em Foz do Iguaçu fazendo turismo. De lá rumamos para Santiago, onde ficaremos até mais ou menos o dia 13-01. Se dermos sorte, encontraremos o pessoal do Dakar por lá.

Depois, então, Atacama. Ficaremos umas duas semanas conhecendo tudo por lá.

Mas essa será a fase 3. Agora o objetivo é Santiago do Chile.

Abraços a todos. Continuem deixando comentários. Mesmo que eu não possa responder direito, é gostoso ver que fomos lembrados.

09.01.2010

Estamos bem e dentro do cronograma. Tivemos que desistir de Quijadas e Calingasta porque eram mais longe que imaginávamos. Apenas com dificuldades para encontrar acesso a internet e telefone.

Daqui a pouco subiremos os Andes. Ficaremos 3 dias descansando antes de subirmos ao Atacama. A viagem está perfeita. No caminho passamos pelos dias mais quentes e mais frios de nossas vidas. Andamos em um lugar parecido com a caatinga e uma serra linda de 2.000m perto de Cordoba. As curvas pareciam do Need for Speed.

Andamos quase 6.000 km. A Renata está 10, já está a 3.000 km com a gente, e firme. Nunca me canso de admirá-la.

Depois mandamos mais notìcias. Abraços a todos!

11.01.2010

Uma das grandes ansiedades que eu tinha antes de viajar era a língua. Não tive tempo para aprender nada. Mas quando chegamos aqui tudo correu muito bem. Compreendemos quase tudo que eles falam. Eles não nos entendem muito bem, mas se esforçam bastante.

Mas isso não impede que aconteçam situações interessantes. A primeira, que não é bem da língua espanhola, foi quando estávamos chegando em Posadas, no dia mais quente da minha vida. O sol estava tão quente que brigávamos para ficar na sombra do sinaleiro. Na estrada vi uma placa com um chuveiro, escrito 24h embaixo. Daí pensei em dar uma parada para me refrescar. Mas assim que parei, com o cérebro quase derretido pelo calor, a Renata caiu na risada me dizendo que a placa não era de chuveiro, mas sim para usar luz baixa o dia todo.

Outra situação foi quando paramos em um restaurante para almoçarmos. Conhecemos uma família com seis crianças. Ao nos despedirmos, dissemos a eles que gostamos muito de conhecê-los. No entanto, eles entenderam que os tínhamos convidado para passar alguns dias em nossa casa em Recife.

Eles escolhem bem as palavras para descrever as coisas: extintor=matafuego, palito=cava dientes, acetona=quita esmalte, carrapato = garra patas.

Às vezes fazemos algumas brincadeiras que só nós os brasileiros entendemos, como pedir uma cueca quando queremos uma coca-cola.

Outro dia, fomos pedir um café. A moça então perguntou: “Un café chico?”, Para o qual respondemos de bate-pronto: “Sim, um café na xícara”.

Na parte da Argentina perto de Foz do Iguaçu eles chamam as garagens de cochera. Então, em todos os hotéis que parávamos, perguntávamos se havia uma cocheria. Só depois de sairmos da Argentina é que descobrimos que cocheria quer dizer cemitério.

Aqui quase todos os hotéis têm água quente e banheira. Então tive a grande idéia de colocar as roupas de molho na banheira. Mas não encontrei um tampão. No elevador, a caminho da portaria, fiquei pensando em como poderia explicar que precisava de um tampão. Penso que descobri uma descrição que combinava exatidão com lirismo. Chegando lá, falei para o porteiro.

“Permisso. Por favor, tenerias un dispositivo que impessa que la àgua se vá embora en el baño?”

Para a qual o carinha respondeu prontamente:

“Queres un tampon?”

11.01.2010

De resto tudo certo. Conhecemos um casal de motociclistas aqui em Valparaiso que nos levou ao Cerro, um ponto bem alto de onde vemos todo o Pacífico. Passamos pelos Andes (3.880m). A burocracia é muito grande para entrar no Chile, mas tudo é farra.

Daqui a pouco vamos tomar um banho no Pacífico. Os locais dizem que é maluquice, pois a água é muito fria. Mas vamos mesmo assim.

Continuamos a ser muito bem antendido por todos Chilenos, da mesma forma como fomos pelos Argentinos. Estamos descansando aqui em Valparaiso por 3 dias. Depois levaremos a Renata para o aeroporto em Santiago. De lá, seguimos os três para o Atacama.

Abraço a todos!

12.01.2010

Continuamos em Valparaíso. A cidade é linda. Subimos os ascensores, comemos um peixe fresco e andamos pelas calçadas. O transito é completamente caótico. Chega a ser engraçado para quem só está assistindo. Não nos arriscamos a sair de moto.

Já experimentei várias comidas diferentes na viagem: chourizo, língua de vaca crua, zapallitos italianos rellenos, abacate com sal e pisco sour.

Ainda não fui nadar no pacífico. Vamos daqui a pouco.

Está meio complicado baixar as fotos, mas para terem uma idéia de como é por aqui, dêem uma olhada nas fotos do Google

Amanhã sairemos para o Atacama. Acredito que não será muito fácil escrever por um tempo.

Abraços a todos.

14.01.2010

A minha moto já alcançou os 7.000 km. Amanhã completamos 21 dias de viagem. Faltam outros 21… no mínimo.

Vamos imaginar que a água de um banho possa ser quente, morna, fresca ou fria. Nesta escala, a água do Pacífico é congelante. Sabe quando descongelamos o congelador e a água gelada fica na gaveta? Pois é, o meu banho inaugural foi um pouco mais frio do que isso.

Ontem deixei a Renata no aeroporto. No caminho, entre Valparaíso e Santiago, passamos o maior frio de nossas vidas.

Entre Valparaíso e La Serena, ainda ontem, tivemos muitas surpresas. A estrada que vai beirando o mar é muito legal. Cheia de curvas. Venta muito. O mar quebra as rochas com bastante força.

La Serena é uma cidade colonial muito bonita e bem cuidada. Mas sentimos uma certa frieza das pessoas conosco. Pode ser só impressão.

Hoje, ao sairmos da La Serena, o tempo estava bem nublado. Pegamos bastante névoa perto do mar. Parecia que estávamos em um limbo rumo ao purgatório. Depois de uma subida de 800m o sol resolveu aparecer. Estávamos no Atacama. É exatamente como eu esperava. Grandes espaços e montanhas coloridas.

Outra coisa que nos surpreendeu foi o frio durante todo o dia na estrada. Mesmo com sol, tivemos que usar a segunda pele e balaclava. Ao chegarmos em Copiapó, já 4 da tarde, começou a esquentar.

Daqui a pouco vamos assistir a um comício. A eleição no Chile é no próximo domingo. As pesquisas mostram um empate.

Ainda não decidimos se vamos para Ojos de Salado (de van) ou se tocamos para o norte. Vai depender do preço do passeio. Não vamos arriscar os 300 km de rípio.

Abraços a todos!

15.01.2010

Antes de mais nada, esqueci de contar sobre a minha aventura nos cassinos da Argentina. Por mais que todos dissessem para eu não ir, sempre tive muita convicção do meu esquema infalivel. Joguei algo equivalente a R$ 4,00 e ganhei R$ 13,00. Tripliquei o valor investido. Mas, para não ter nenhum tipo de azar com o dinheiro ganho no jogo, doei para uma família carente. Me senti um Robin Hood, roubando dos ricos para dar aos pobres.

Ontem conseguimos marcar a tour pelo Parque Nacional Nevado Tres Cruces. Valeu a pena. Por um lado não andamos de moto, mas andamos em um monte de estradas na beira de abismos, salares e desertos. Foram 550 km, em um passeio de quase 11 horas. Se tivéssemos ido de moto, teríamos conhecido apenas a Ruta Principal. A máxima altura foi de 4.200 m. Nos sentimos bastante cansados naquele lugar.

O guia foi o Gino Bianchi, um piloto do Dakar aqui do Chile. Muito chic. Ouvimos várias histórias. Quando fui levar a moto na oficina dele, descobriram que um dos pinos da minha corrente estava quase caindo. Por sorte tinham uma outra DID por lá. Fizeram a troca rapidamente.

Amanhã sairemos sem rumo para o norte. Talvez paremos em Chañaral, talvez em Antofagasta.

Abraços a todos!

16.01.2010

Oficialmente já tínhamos chegado no Atacama há dois dias, mas na prática foi hoje mesmo. Depois de subirmos uma pequena serra em Chañaral, chegamos ao deserto. Um lugar sem nenhuma vegetação. Grandes áreas abertas, com montanhas rochosas imensas. Exatamente como eu sonhava há mais de um ano.

O céu parece que foi feito em um computador. Não tem nenhuma falha.

A estrada entre Caldera e Chañaral também é linda. Deserto de um lado e um mar bravo do outro. Um lugar para voltar com mais calma com a Renata. Depois desta viagem acho que fiquei satisfeito com grandes distâncias sozinho. Quero aproveitar mais com ela.

Se Copiapó é onde o deserto encontra os Andes, Chañaral é onde o deserto encontra o Pacífico. Os dois lugares são perfeitos.

Vimos o primeiro cemitério da época das salitreras. Pessoas que vieram para cá em busca de trabalho e depois foram deixadas para trás quando o comércio de salitre natural ficou inviável. Mais para frente espero poder ver portos e cidades fantasmas da época do salitre.

Também passamos na Mano del Desierto. Um marco importante para a nossa viagem. Bonitinha, mas se torna comum quando comparada com a beleza natural do deserto.

Estamos em Antofagasta. A descida do deserto para a cidade portuária é impressionante. Amanhã seguimos para Iquique, pela via litorânea. Isso se deixarem, porque hoje passamos batidos em um posto de controle. Depois fiquei pensando que devia ter parado ao ouvir os apitos e tiros. (brincadeira, viu?).

Continuo devendo fotos, mas não temos muito tempo livre (ainda bem… hehe). Prometo que coloco depois com calma.

Mais uma vez peço desculpas por não responder direito os seus comentários. Mas escrevam mesmo assim. Leio todos. Ajuda a matar a saudade dos amigos.

Agora vou ver se acho alguma coisa para comer. Amanhã é a eleição presidencial, por isso estão fechando todo o comércio.

Abraços a todos!

20.01.2010

Seguem algumas fotos. Depois volto para colocar as legendas. Abraços a todos!

Cataratas do Iguaçu-PR

Missões-AR

Córdoba-AR

Paso Libertadores-AR

Valparaíso-CH

Deserto do Atacama nas proximidade de Chañaral-CH

Deserto do Atacama nas proximidade de Copiapó-CH

Laguna Santa Rosa-CH

Laguna Verde e Vulcão Ojos del Salado (o vulcão ativo mais alto do mundo)-CH

Olho d´água próximo à Laguna Verde-CH

Descida dos Andes para Copiapó-CH

Próximo à Antofagasta-CH

Antofagasta-CH

Próximo à Cobija-CH

Próximo à Tocopilla-CH

Tocopilla-CH

Próximo à Tocopilla-CH

Próximo à Iquique-CH

Iquique-CH

Oficina Santa Laura-CH

Próximo à Pisagua-CH

Próximo à Arica-CH

Próximo à Putre-CH

Vulcão Parinacota-CH

Putre-CH

Próximo à Laguna Chungará

Próximo à Arica-CH

20.01.2010

No domingo saímos de Antofagasta de manhã sem a neblina e o frio. Nos dias anteriores aqui no deserto o sol aparecia só no decorrer do dia. O mercado no porto de Antofagasta é lindo. Há gaivotas e pelicanos voando por todos os lados, alvoroçados enquanto os homens tratam os peixes que chegam nos barcos. Conhecemos um senhor por lá, Juan, que nos contou as estórias escritar por Hernan Rivera Letelier. Eu já tinha lido O Fantasista antes de vir para cá, mas não estava conseguindo encontrar outros títulos. Comprei mais quatro livros dele. Todos sobre as salitreras. São engraçados, comoventes, simples e sábios ao mesmo tempo. Depois uma mulher que trabalha em uma livraria de Arica me disse que as pessoas daqui não gostam muito dele porque são obrigadas a ler na escola. A mesma razão pela qual não gostamos de nossos autores brasileiros. A arte deve ser livre!

A estrada entre Antofagasta e Cobija parece um cartão postal. Há uma grande cordilheira à direita e uma grande plano até o mar à esquerda. Chegando em Cobija – que é um porto fantasma da época do salitre -, a neblina nos cobriu novamente, como que para tornar o ambiente mais lúgrube. É uma sensação muito forte caminhar por suas ruinas perto do mar, com as cordilheiras nos olhando do alto.

Hoje finalmente caiu a ficha de que estou no Atacama. Em vários momentos fiquei bastante emocionado dentro do meu capacete.

Por falar nisso, em várias ocasiões da viagem – serra entre Córdoba e Villa Dolores, Andes e na costa do Pacífico -, parece que falta o ar. No início pensei que fosse efeito da altitude, mas depois percebi que às vezes ficamos tão entretidos com alguma paisagem espetacular que simplesmente esquecemos de respirar.

Depois de Cobija a estrada se transforma em um zig-zag no meio das rochas. Uma delícia para pilotar. Almoçamos em uma posada. Essas são pequenos restaurantes no meio da estrada. Por fora parecem favelas, mas por dentro são muito bem arrumadas e com boa comida.

Tocopilla oferece um ambiente bem diferente. Chegando lá a pessoa se surpreende com suas imensas termoelétricas próximas ao mar. Parece que você entrou no meio de um parque industrial. Interessante.

A estrada ao redor de Tocopilla é bem sinuosa, com relevo rochoso – mar de um lado e montanhas do outro. Mais Need for Speed. Depois de Tocopilla a cordilheira finalmente encontra o mar. A estrada agora fica literalmente na encosta. Uns 80 km ao norte, a cordilheira retrocede novamente. Parece que fica mais alta, formando uma imensa rampa. Por cima da cordilheira, lá no deserto para onde voltaremos na segunda-feira, há muitas nuvens.

Dormimos em Iquique, onde não aconteceu nada de espetacular a não ser termos conseguido comprar cerveja durante a Lei Seca do Chile. Por falar em cerveja, ainda não conseguimos entender onde se vende bebida por aqui. Na maior parte das lanchonetes e restaurantes não se vende cerveja. Não é como no Brasil que se compra em qualquer padaria, posto ou banca de revista.

Na saída de Iquique conhecemos outro senhor, Fernando, que morou no Brasil muitos anos. Nos contou várias histórias. Esses encontros são a melhor parte da viagem. Mas temos que tocar em frente.

As estradas perto de Iquique são simplesmente fantásticas. Dá a impressão que você está subindo uma duna de 600m de altura. Não faço idéia de como eles conseguem manter aquelas estradas naquele tipo de terreno.

Depois de rodar uns 40 km, fomos visitar as salitreras Santa Laura e Humberstone. Muito bem preservadas, fazem com que você tenha sentimentos muito fortes. Não é possível compreender o que se sente, nem classificar o tipo de emoção. Mas estão lá de qualquer maneira. Gostaria de ter reservado mais tempo para passar por ali.

Eu não teria feito esta viagem sozinho, por medo de quebras na moto em regiões isoladas do deserto. Meus companheiros são grandes pessoas, com quem gosto muito de passar o tempo. Mas não posso negar de que em alguns momentos, como lá em Humberstone, ou quando ando no deserto, talvez tivesse gostado de passar um pouco mais de tempo sozinho. Quando se está na companhia de outros, sua mente fica rondando por uma área segura e conhecida. Tenho curiosidade de saber para onde ela iria se tivesse experimentado em solidão a imensidão do deserto ou as impressões de Humberstone. Mas, como eu disse, esta possibilidade não existe porque não teria vindo sozinho.

Entre Antofagasta e Iquique estávamos na costa. Depois da subida de Iquique voltamos para o deserto, em uma região completamente plana e mais quente. Sopra um vento forte lateral por aqui. Em alguns lugares vímos dezenas de redemoinhos. Em Huara paramos para comprar combustível. Mas a senhora que vende não estava em casa. Sorte que tínhamos trazido tanques reservas.

Viramos novamente para o oeste, em busca da cidade de Pisagua, no Pacífico. Outra descida vertiginosa. Lindo.

Nestes últimos dias venho sentindo o corpo um pouco cansado. Às vezes fico irritadiço e não aproveito tanto a viagem. Hora de parar um pouco. Como estávamos adiantados um dia em nosso cronograma, combinamos dar uma parada de um dia para descansar o corpo e a mente. Perfeito.

Entre Piságua e Arica subimos e descemos várias vezes “dunas” quilométricas. Na última delas, no vale do Azapa, há uma região bem verde no meio do deserto. Imagino, sem pensar muito, que a Crescente Fértil talvez fosse algo deste tipo. Muito legal. Arica tem dois destes vales: Lutta e Azata.

Ontem fomos de van conhecer o Parque Nacional Lauca, com cidades antigas, vulcão Parinacota e lago Chungará. A lagoa fica a 4.500 m de altitude. Desta vez não me cansei tanto. Não sei se foi pela experiência anterior da altitude, as cheiradas de Cocoroco, o chá de coca ou ainda as folhas de coca. Experimentamos de tudo que tínhamos direito. Comemos até carne de Alpaca.

A descida para Arica, vista pela janela da van, é tão íngreme que parece que se está descendo de avião. De moto você fica mais preocupado com a estrada e não tem essa impressão.

Hoje foi dia de descanso aqui em Arica. Mas ainda deu um tempo para visitarmos o Morro de Arica.

Amanhã rumamos para San Pedro de Atacama. A viagem deve demorar 2 ou 3 dias. Uma parte pela estrada em que viemos, outra parte em uma estrada paralela, desta vez por dentro do deserto ao invés da costa.

Abraços a todos!

21.01.2010

Hoje não há grandes notícias porque estamos em um momento de deslocamento puro entre o Parque Nacional Lauca (com base em Arica) e São Pedro de Atacama.

Deixamos Arica hoje pela manhã sem maiores transtornos. O Geraldinho e o Wagner foram conhecer a missa chilena. Eu, como bom ateu, fiquei tomando conta das motos. Gosto de pensar que tenho um lugar reservado no primeiro círculo do inferno, lugar destinado aos ateus bonzinhos, onde terei a companhia dos grandes filósofos gregos. Mas talvez seja impedido de ficar por lá porque fui batizado – contra a minha vontade, que fique bem claro!

A estrada foi a mesma que usamos para ir, mas desta vez não passamos em Pisagua. Só o Wagner precisou de combustível extra. A descida para Iquique continua linda.

Trocamos o óleo, filtro de óleo, lavamos a roupa e aproveitamos para descansar um pouco mais. Até tomamos banho de piscina no hotel. Amanhã vai ser o deserto mesmo. Dizem que a estrada entre Iquique e Calama é bem quente, quase sem gasolina ou movimento. Vamos ver. Estamos aqui para isso mesmo.

Quero ver se passo pelas Oficinas Maria Elena e Coya, lugares descritos no livro O Fantasista sobre o qual falei outro dia.

Em São Pedro temos 3 passeios em mente: geysers, salar e Valle de la Luna. Depois voltamos para casa levando uns 12 dias mais. Não sabemos ainda se vamos voltar pelo Paraná ou pelo Rio Grande do Sul. Mas é quase certo que passemos na Rio-Santos.

Abraços a todos!

28.01.2010

Continuo devendo as legendas das fotos antigas. Quando tiver um tempo maior coloco lá. Seguem algumas fotos novas. Desculpem não ter tempo para responder aos comentários. Estou lendo todos.

Arica-CH

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San Pedro de Atacama-CH

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Abraços a todos!

28.01.2010

Em Arica fomos visitar o Morro. Lá os chilenos demonstram um grande orgulho militar que, como brasileiro, não consigo compreender. Parece ser algo bem anterior ao regime militar, sendo parte integrante da identidade daquele povo. Mesmo sabendo que o militarismo é perigoso, aquele orgulho é inspirador.

Nos despedimos do Pacífico em Iquique. Foi um bom companheiro. Agora teremos como amigo o sol, que será o nosso guia todos os dias pela manhã enquanto prosseguirmos para o leste, rumo ao Atlântico.

Entre Iquique e San Pedro temíamos pela falta de combustível e pelo calor. O calor foi um pouco maior que nos outros dias, mas nada tão quente como o nosso sertão ou o sul/sudeste brasileiro no verão. Passamos de novo por perto de Humberstone ao nascer do sol. A coloração desgastada e as sombras deixam o lugar mais fantástico ainda. Encontramos gasolina em Maria Elena, a antiga oficina salitrera que hoje em dia continua vivendo com outra indústria mineral. Não conseguimos encontrar Coya Sur.

Durante essa nossa viagem temos encontrados muitas pessoas viajando com motos pequenas. O ritmo delas é bem diferente do nosso. Vão parando para descansar na sombra. Conhecem mais pessoas. Fiquei pensando seriamente em comprar uma custom, que me obrigaria a mudar de ritmo. Mas talvez não seja necessário. Posso continuar com a minha XT660 desde que me esforce para quebrar os planos e andar mais devagar, parando por aí. Aposto que a Renata iria curtir muito mais as viagens deste jeito. Depois de ter me satisfeito com essa grande viagem ao Atacama, acho que no próximo momento eu gostaria de ter mais tempo para ler, escrever, conhecer pessoas, levar bem menos bagagem e contemplar os lugares. Vamos ver…

O deserto aqui não é mais impressionante como no começo, perto de Chanaral. É um grande plano interminável. Por um lado não é mais uma festa para os olhos, mas a cabeça fica mais solta. Bem, não sei se isso tem a ver com Zen ou meditação, mas quando você consegue entrar em um estado sem distrações exteriores, mas com a necessidade de manter a concentração, como no caso da pilotagem de uma moto, então às vezes a sua mente se desloca do lugar comum. Você perde a sua individualidade e se mescla ao ambiente. Muito legal.

As cuecas que eram brancas já não estão mais manchadas como nos primeiros dias da viagem. Adquiriram agora um tom marrom homogêneo. O spray contra chulé é muito bom para diminuir o cheiro das roupas de cordura, luva e capacete.

San Pedro de Atacama é um Oásis no meio do deserto. A cidade de adobe é bonita. Não é o meu estilo. Cheia de turistas. Ao contrário do deserto, SPA é um monumento à distração visual. Tudo é lindo e impressionante. Legal, mas um pouco fora do meu intento por aqui. No sábado ficamos passeando intensamente durante 17 horas. Desde o nascer do sol nos geysers até depois do pôr-do-sol no Vale da Lua. O que mais gostei foi a caminhada pelas dunas no Vale da Morte, com sol a pino.

No domingo nos despedimos do Chile e dos Andes. O Paso de Jama, entre o Chile e a Argentina, é lindo. Bem diferente do Paso Libertadores, com suas montanhas rochosas. Aqui em Jama ficamos andando em um deserto de mais de 4.000m de altura, por mais de 100 km. Pegamos tempestades de raio, andamos entre as nuvens e aproveitamos o deserto colorido: amarelo, vermelho, verde e bege. A descida para a Argentina é vertiginosa.

Chegando à Argentina tivemos contato novamente com a vegetação. A animação das pessoas é bem diferente da dos chilenos.

De Jujuy para Foz foram dois dias de bastante calor, retas e ansiedade. Queríamos chegar logo ao Brasil. Ao examinar a corrente da minha moto pela manhã, vi que a trava tinha caído. Conseguimos encontrar outra trava sem grandes dificuldades.

Ontem foi dia de compras no Paraguai e descanso no hotel. Hoje as motos estão na oficina para trocar pneus e óleo. Tudo na mais completa paz. Só tenho muitas saudades da minha família. Mas tenho sorte de ter uma mulher que me acompanhou nesta viagem enquanto pôde. E agora, quando não pode mais porque tem que cuidar de nosso bebê, fica me apoiando ao máximo. Sempre orgulhosa de que consegui fazer algo muito importante para mim.

Minha filha, de praticamente 14 anos, como diria ela, está em uma viagem também. Espero que esteja sendo fantástica. Tenho quase certeza que ela também tem muito orgulho da minha viagem. Daqui a pouco ela vai gostar desse tipo de viagem também, para conhecer outros povos, a história de outros lugares e os sonhos das outras pessoas.

Já o nosso bebezinho não tem idade ainda para entender as coisas. Mas mandei vários postais para ele dos lugares onde estive. Posso quase apostar que quando ele for maiorzinho vai olhar para aqueles postais de lugares distantes e sonhar com uma vida de aventuras. Sempre respeitando as outras culturas e sempre querendo aprender mais.

Mal posso esperar para apertar os três novamente.

Nosso próximo destino é a Rio-Santos. Mando notícias de lá.

Abraços a todos!

01.02.2010

Nesta viagem nos vimos em vários lugares que nos deixavam sem palavras, como que suspensos no tempo. A primeira visão dos Andes, o banho no Pacífico e estar no meio do Atacama, só para dar alguns exemplos. O problema é que sempre – em algum momento – tínhamos que parar a contemplação e seguir a viagem. Se fôssemos mariquinhas, em uma dessas situações teríamos dito: “Que lugar fantástico. Pena que ficamos tão pouco tempo e já tenhamos que ir embora”. Além disso – se fôssemos mariquinhas -, no momento da despedida do local teríamos, talvez, até deixado correr uma lágrima. Mas como somos machos, toda vez que nos víamos na situação de ter que ir embora de um lugar que gostamos muito, dizíamos: “Vamos embora desta bosta!”. Pode não ser algo de classe para ser dito, mas é coisa de macho.

Nos despedimos do Geraldinho em Foz do Iguaçu. De lá, eu e o Wagner seguimos para Curitiba. Como a estrada não tinha muitos atrativos, aproveitamos para retomar o prazer de simplesmente pilotar uma moto. Curvas, ultrapassagens, retões, subidas e descidas.

No sábado de manhã pegamos chuva na estrada. Tínhamos ainda 7 dias para chegar em Recife. Conheceríamos a Rio-Santos, o sul mineiro e pararíamos em alguma praia nordestina. Mas a saudade bateu mais forte. Olhamos um para o outro e falamos quase que em uníssono: “Vamos embora desta bosta!”.

O que se seguiu foi um Iron Butt triplo. 3.100 km em três dias. Com direito a cruzar São Paulo, contornar Curitiba e Belo Horizonte.

Sabem quando uma empresa quer te impressionar e diz algo do tipo: “Se colocássemos juntos todos os caminhões produzidos nos últimos 5 anos no Brasil poderíamos fazer uma fila ininterrupta de Belo Horizonte até Recife”? Bem… alguém resolveu fazer essa tal fila. Ficamos 2 dias inteiros ultrapassando caminhões em alta velocidade. Foi perigoso, acredito, mas para quem estava com saudade de uma boa andada de moto, foi excitante. A injeção constante de adrenalina fazia esquecermos o cansaço.

Para não perdermos tempo em desmontar as motos à noite nesses três dias, chegamos ao mais baixo nível de desleixo. Já havíamos desistido de tomar banho pela manhã há um certo tempo. Mas agora não havia tempo nem mais trocar de roupa… vão direto para o lixo.

Cheguei em casa agora a pouco. A Renata, Gabriela e Dante estavam à minha espera na sacada. Que mais alguém pode querer?

Nas outras viagens que fiz sempre chegava em casa já pensando na próxima. Mas desta vez é diferente. Quero mais é aproveitar os três. Também quero aproveitar mais a minha moto, fazendo passeios com mais calma. Parando em uma sombra para tomar uma água e prosear com os moradores.

Sobre esta viagem, não pretendo escrever um registro detalhado como das outras vezes. Quero ver se escrevo algo com mais cuidado, com a intenção de entreter, não registrar. Não seria bem um livro ainda, mas um proto-livro. Tenham paciência. Quem estiver com mais pressa, é só me convidar para uma conversa.

Vou pegar o dinheiro que economizei chegando alguns dias antes para comprar uma jaqueta de couro tradicional. Nada mais de Iron Butt ou grandes maratonas turísticas. Pelo menos por um tempo.

Depois de rodar mais de 15.000 km em terras distantes, caminhado por desertos, conversado com fantasmas, ter feito a côrte à morte e amassado a bunda no banco da minha moto, deixo – como Forrest Gump – uma frase que sintetiza à perfeição como me sinto neste momento:

“Estou cansado.”

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Post Script

Esse “Estou cansado” foi só uma brincadeira com a cena do Forrest Gump. Aquela em que ele passa 3 anos, 2 meses, 14 dias e 16 horas correndo na estrada. Nesse tempo, uma série de seguidores não desejados começam a correr atrás dele, pensando que ele descobriu o sentido da vida – ou algo assim. Quando ele finalmente pára, os seus seguidores dizem: “Quietos! Quietos! Ele vai dizer alguma coisa!”. Para o qual o Forrest Gump, após uma pausa, só responde: “Eu estou bem cansado… acho que vou para casa agora.”

A brincadeira era só essa. Embora eu tenha gostado muito de toda a viagem, não poderia colocar em palavras o que eu vivi nesses 40 dias. Mas várias pessoas não entenderam a minha brincadeira e ligaram preocupados que eu não tinha gostado da viagem.   

Eu adorei o Atacama! 

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10 dias depois da chegada…

Acabei de pegar a minha moto da revisão. Também tirei os adesivos da bolha e do bauleto. Não há mais marcas da Viagem ao Atacama, nem um mísero mosquito esmagado no caminho. Bem, ainda falta lavar o forro do capacete, guardar as ferramentas e trocar os amortecedores da roda traseira. Também falta organizar os livros que comprei na viagem, sem contar começar a leitura deles. Na opinião da Renata nós deveríamos deixar os adesivos do Atacama na moto pelo menos por mais um tempo. Mas não gosto de olhar para trás. Mesmo o livro que pretendo escrever, usando a viagem como roteiro, terá como tema principal o futuro.

Mas o mais simbólico para representar o final da viagem foi a compra da minha jaqueta preta de couro. Quero deixar de lado um pouco a praticidade da cordura impermeável. Agora vou suar mais, me sujar mais, me molhar mais e feder mais.

Até pensei em comprar uma moto custom, o que me obrigaria a mudar de ritmo. Mas – como sempre diz uma amiga nossa -, está na hora de parar de jogar as responsabilidades das mudanças para as coisas. Não são as coisas que nos fazem mudar, somos nós mesmos. Então, vamos ter que aprender a andar mais devagar com a XT mesmo…

É certo que a jaqueta preta de couro é uma coisa, né? Mas não consegui me desprender muito da matéria ainda. Por sinal, não pretendo jamais me desprender da matéria que compõe as motocicletas!

O pessoal que torcia por mim durante a Viagem ao Atacama sempre me pára e pergunta “Qual vai ser a próxima? Machu Picchu, Ushuaia, Alaska?”. Não. As próximas são uma saída sem rumo para tomar um café-da-manhã com a Renata, depois um encontro com os PEBA´s em João Pessoa, depois a primeira viagem de moto da Gabriela e por aí vai.

Por que lugares tão próximos, tão corriqueiros? Cansei de andar de moto? Fiquei frustrado com a Viagem ao Atacama?

De jeito nenhum!

Ficar 40 dias fazendo o que você mais gosta é de uma libertação quase que inexplicável. A vida fica extremamente simples. Você acorda e diz “oba, mais do mesmo!”. Quando acontece algum problema a sua mente se concentra apenas em como resolvê-lo para poder continuar a viagem. Nada de procurar culpados ou remoer os problemas. Quando você guarda a moto na garagem de algum hotel, vai dormir satisfeito da vida. Quero deixar essa experiência decantar em mim aos poucos. Quero que minha vida seja sempre assim, simples e com significado.

Por outro lado, em uma viagem como essa você sente falta dos amigos, dos filhos e de dormir abraçado com a sua mulher. Ao mesmo tempo que você pensa que é muito bom poder andar de moto todos os dias, também pensa em como é bom poder namorar todos os dias. Mesmo tendo passado 10 dias da minha chegada, ainda me lembro da saudade que senti. Mas a diferença é que agora, quando sinto essa saudade, posso matá-la na hora.

Agora é o Ushuaia? Não. Agora quero juntar os dois mundos: quero a liberdade da moto e quero a companhia de quem amo. Quero continuar a andar de moto todos os dias, mas também dar mais qualidade ao tempo que passo com a Renata, com meus filhos e meus amigos. Quero aprender – vai ser difícil – a passear mais devagar nos finais de semana.

Não quero passar o ano todo me preparando para uma viagem. Quero sim é me sentir o ano todo como me senti durante a Viagem ao Atacama. Só que agora 365 dias ao invés de 40 dias, ao lado de quem amo e sem cronogramas a serem respeitados.