Motoqueirismo e “Motociclismo”

Esse negócio de “motociclista” é coisa para separar quem é rico de quem é pobre, separar quem tem moto grande de quem tem moto pequena, separar quem quer parecer bem comportado de quem anda de moto sem se preocupar com que os outros pensam. Claro que há exceções, gente que usa o termo sem pensar muito no seu significado, sem maldade. Mas o termo “motociclista” tem como único propósito o de discriminar.

O motoqueirismo inclui todos que andam de moto – seja por gosto ou por necessidade. Andou de moto é motoqueiro. O “motociclismo” exclui quase todos que têm motos pequenas. Bem, para ser justo, os “motociclistas” até deixam um cara de moto pequena ser chamado de “motociclista”; mas tem que ser bem comportado, limpinho, não fazer muito barulho, não ser muito folgado nos motoencontros, pilotar que nem uma velhinha e ser educadinho. Agora, quem tem moto grande, independente do comportamento, daí sim é “motociclista”. Essa palavra “motociclista” devia ser banida como discriminatória. Quase criminosa.

Tem gente que quer mascarar a real intenção do uso do “motociclismo”, dizendo que esse sim é o termo correto, por causa da origem da palavra. “Motociclista” vem de “motocicleta”, “motoqueiro” vem de “motoca”. Tentativa bonitinha, mas a nossa língua não é simplória assim. No Brasil, não andamos de “motocicleta”, andamos de moto. No Brasil, quem anda de moto não é “motociclista”, é motoqueiro. “Motocicleta” é um termo usado unicamente no meio técnico, porque é preciso deixar claro do que se está falando.

Alguns fatos

  1. É arriscado andar de moto.
  2. É gostoso andar de moto.
  3. Quem não anda de moto não gosta de moto.
  4. As fabricantes querem lucro.

Algumas conseqüências desses fatos

Em um país como o Brasil, a maior parte das pessoas compra motos pequenas; para trabalhar, para se locomover e para passear. Por isso, o grande foco das fabricantes por aqui está nas motos de baixo custo.  Cada fabricante precisa convencer o consumidor de duas coisas: 1) comprar a sua moto, não a moto da concorrente, e 2) que andar de moto não é perigoso.

Já a sociedade tem outros interesses. As pessoas em geral não gostam de moto porque são perigosas, trazendo muitos prejuízos emocionais e financeiros. A morte de um familiar em um acidente de moto é uma grande dor. Além disso, quem não anda de moto não gosta dos motoqueiros porque eles transmitem liberdade, alegria, crítica às regras e uma enorme fome de viver. A visão de pessoas assim pode ser quase insuportável para quem não anda de moto. É como se os motoqueiros passassem o dia inteiro zombando das pessoas, lembrando-as de como é viver de verdade, com todos os riscos que isso implica. Mas mesmo assim a sociedade precisa dos motoqueiros para entregar cartas, remédios, documentos e pizzas.

Então, temos desejos conflitantes aqui:

  1. As fabricantes querem vender muitas motos
  2. A sociedade não gosta dos motoqueiros
  3. A sociedade precisa dos motoqueiros
  4. Algumas pessoas vão fazer de tudo para andar de moto

Como resolver tudo isso? Fácil, vamos inventar uma coisa chamada “motociclismo”, um movimento formado por motos grandes e pessoas de bem.

O “motociclismo”

Como funciona o “motociclismo”? Primeiro, cada fabricante coloca no mercado umas motos grandes bem bacanas, algumas até parecidas com as que correm na TV ou aparecem em filmes americanos. Desse jeito, conseguem convencer os consumidores a comprar as suas motos pequenas. Como se a tecnologia fosse a mesma. “Aquela fabricante chinesa não participa do MotoGP. As suas motos de rua devem ser bem piores que as motos 125cc de rua das fabricantes tradicionais.”

Depois, criam-se encontros, programas de televisão, associações e revistas de “motociclistas” que só falam de motos grandes e de pessoas bem comportadas. Tudo uma maravilha. Esse “universo do motociclismo” tem várias utilidades. A primeira é vender as motos grandes que as fabricantes colocaram no mercado para promover a sua marca. De forma colateral, esse “universo do motociclismo” consegue convencer que a felicidade de alguém está em consumir a última moto lançada, o último acessório. Todo mundo sai ganhando: fabricantes, vendedores de pneus, fábricas de acessórios, editoras de revista. Tudo bem que essas motos grandes depois não têm peças de reposição e são difíceis de vender. Tudo bem que a luva impermeável demora 10 minutos para ser colocada depois que fica suada. Tudo bem que o “motociclista” saiu pilotando bêbado do motoencontro. Tudo bem que aquele pneu “adventure” é um perigo no asfalto. O “universo do motociclismo” não toca nesses assuntos.

O “motociclismo” serve também para usar como exemplo aos motoqueiros mal comportados: “Está vendo? Assim é que se deve comportar em cima de uma motocicleta.” As famílias podem colocar coleiras em quem insiste em andar de moto de qualquer jeito. “Tudo bem, amorzinho, pode andar de moto, mas não como um motoqueiro, promete?” Ainda, como na mídia especializada agora só aparecem os “motociclistas”, passa-se a imagem de que é possível ter um “motociclismo” seguro. É só uma questão de educar os motoqueiros, como se a velocidade não fosse uma atração irresistível a quase todos. “Sim, mas e aquele rapaz que corre com a sua moto esportiva, também é motociclista?” “Ele é de boa família. É diferente desses motoqueiros pé-rapados que correm no trânsito, né?” Não pense demais.

Por último, tem a utilidade de segregar os motoqueiros. Agora que não se pode mais falar mal abertamente das mulheres, das crianças, dos gays, dos negros e dos pobres, todo mundo escolhe “aqueles motoqueiros” como inimigos públicos número um, como causa de todos os males. “Mas, e o meu vizinho classe-média que só usa a moto para viajar, também é bandido?” “Ah, ele não é motoqueiro, é ‘motociclista’.” Falar mal de fumante ainda pode, mas poucos fumam. Sobra para os motoqueiros mesmo.

Os jornais adoram ter um demônio esperando para ser a fonte dos problemas. Trânsito? Motoqueiros. Crime? Motoqueiros. Desrespeito? Motoqueiros. O que é interessante é que eles até começaram a usar o termo “motociclista”, mas continuam a ligar quem anda de moto apenas a comportamentos imorais, ilegais ou incultos. Continuam confundindo deliberadamente co-incidência com causa-e-efeito.

Esse movimento do “motociclismo” tenta separar quem anda de moto em duas classes: aqueles “motociclistas” bonzinhos que aparecem nas revistas e aqueles motoqueiros bandidos que aparecem nas páginas policiais. A sociedade gostaria que não houvesse nenhum dos dois, porque não quer ver mortos seus familiares que amam as motos. Mas querem pizza. Não conseguem segurar seus filhos e filhas apaixonados por motos. Bem, podemos amansá-los com o exemplo do “motociclismo”.

As fabricantes não gostariam de ver os bandidos aparecendo na TV, pois isso prejudica as vendas. Mas podemos esconder os acidentes com a possibilidade teórica de um “motociclismo” seguro. O problema é que motos não são seguras. Nunca serão.

O motoqueirismo

A separação entre motoqueiros e “motociclistas” só serve para as fabricantes, para quem não anda de moto e para os “motociclistas” que não querem se misturar à ralé.

Só que existe algo muito mais importante do que isso: a paixão por andar de moto. Isso existe no cara rico de meia-idade que procura algo de novo na vida, no jovem pobre que passeia no domingo com sua namorada, no cara que conseguiu um trabalho melhor como entregador, no fuçador que desmonta a sua moto todo final de semana. Todos são apaixonados por motos. Todos são motoqueiros. Queiram ou não queiram.

O motoqueiro tem uma mensagem muito clara: viver é bom e viver é arriscado.

O “motociclismo” tenta esconder esse lado imprevisível das nossas vidas. Tenta diminuir o nosso exemplo contra os regulamentos excessivos. Tenta fazer a gente se sentir mal por gostar de pilotar de verdade uma moto. Tenta fazer a gente ficar no nosso lugar, sem incomodar ninguém. Quietinhos, limpinhos, educadinhos.

O “motociclismo” é bom para vender motos. Bom para controlar os maridos, mulheres, filhas e filhos. Mas não é bom para a cabeça das pessoas. Não é saudável ter medo de tudo nesta vida. Não é inteligente aceitar todas as regras impostas.

Eu gosto de viver. Sou responsável. Sei que andar de moto é arriscado. Não separo as pessoas pela classe social ou pelo tamanho da moto. Não preciso ter o último lançamento de moto para ser feliz. Preciso andar de moto. Sou motoqueiro.

(continua em Motoqueirismo e “Motociclismo” – Parte 2)

Assim que eu publiquei o texto Motoqueirismo e “Motociclismo” – Parte 1, percebi que levei em conta apenas dois espaços de discussão: jornais (que só criminalizam os motoqueiros) e revistas (que só querem vender motos e acessórios para “motociclistas”). Mas existem outros três lugares muito importantes para discussão: reuniões de amigos, blogs e grupos da internet.

Um traço comum desses três espaços de discussão é que não dependem de grandes empresas de publicação. Por bem ou por mal, nós é que mantemos as discussões vivas nestes fóruns.

Um sexto espaço importante de discussão é o conjunto de organizações formais, como associações de fabricantes, órgãos do governo e sindicatos. Eu não tenho qualquer espécie de contato com essas organizações, então não posso dar opinião.

Reuniões de Amigos – Bares e Rodinhas

O principal lugar para conversas sobre motoqueiros e “motociclistas” são as rodinhas: enquanto os motoboys ficam esperando o serviço, nos pontos dos mototaxis e nos encontros de amigos em bares e restaurantes. O legal desse tipo de conversa é que cada um está à vontade perto de seus amigos e companheiros. O problema é que formam naturalmente uma categoria, com mais ou menos a mesma opinião. Por isso, muitas vezes servem mais para consolidar uma opinião existente do que para pensar em novas possibilidades. Quem é motoqueiro continua motoqueiro, quem é “motociclista” continua “motociclista”. Outro problema é que as conversas acabam ficando por ali, não se tornando públicas. Esse espaço é o mais próximo da experiência física do motoqueirismo, pois seus participantes normalmente estão perto de suas motos.

Blogs

Há dois tipos de blogs. Alguns têm grandes anunciantes, se parecendo bastante com as revistas. Esses têm as mesmas vantagens (recursos) e os mesmos defeitos (dependência dos anunciantes). Também há os blogs sem anunciantes, que não têm recursos e são independentes. A principal características dos blogs é que espelham apenas a opinião do seu administrador. Quem é motoqueiro defende os motoqueiros, quem é “motociclista” defende os “motociclistas”. Quem acompanha os blogs normalmente concorda com a opinião de quem escreve, por isso não há muita mudança de opinião. Por outro lado, os textos nos blogs são mais consolidados, escritos com mais tempo e mais cuidado. Então, embora sejam muito lentos nas discussões, são importantes como formadores de opinião. Uma observação importante é que uma das grandes vantagens dos blogs, que é a blogosfera (uma rede de blogs que se comunicam), não é muito forte no meio das motos. Essa blogosfera une a opinião profunda de cada administrador com a diversidade da comunidade. É uma questão que poderia melhorar.

Grupos da Internet

O terceiro espaço de discussão é formado pelos grupos da internet. Neles há milhares de usuários discutindo qualquer idéia. Um usuário lança um tema e os outros respondem. É a maior novidade que temos nos últimos anos. A riqueza de opiniões é muito grande. Aqui os motoqueiros defendem suas opiniões, os “motociclistas” as suas, em um grande embate. Muitas vezes essas argumentações viram briga. A deficiência desse espaço de discussão é que não há uma consolidação das idéias, apenas um grande caos de opiniões. Outra coisa é que normalmente as pessoas respondem às pressas, não para contribuir, mas para ganhar a discussão. Esse aspecto político nos grupos da internet – para ver quem é mais espertinho, mais sarcástico e quem escreve mais – fica acima da construção de uma visão mais integrada do que eu chamo de motoqueirismo (integração de todos que andam de moto). Isso não é nada de novo, pois essa componente política faz parte de qualquer relação humana. Normal.

Como ilustração, eu resolvi testar esse espaço de discussão. Publiquei a primeira parte deste texto em cinco grupos da internet. O texto foi publicado no sábado à tarde. Esperei até o domingo pela manhã para ver os resultados. Esse teste não tem nada de formal, por várias razões: esperei pouco tempo e escolhi os fóruns em que eu já era cadastrado. Outro problema é que eu não sei se os participantes no sábado são representativos do restante da semana.

O título do texto, que era visível aos participantes, era “Motoqueiros e ‘Motociclistas'”. Se a pessoa se interessasse pelo assunto, clicava sobre esse título, ganhando acesso ao texto. Ao fazer isso, esses fóruns registravam as visualizações. Não dá para saber se a pessoa leu o texto ou não. Vamos aos resultados.

Clube XT600. 16.600 membros. Formado por pessoas que possuem motos Yamaha XT600, Yamaha XT660 ou Suzuki V-Strom. Pouquíssimas visualizações e nenhuma resposta. Não posso dizer se isso aconteceu porque poucas pessoas participaram do fórum, porque não houve interesse pelo assunto ou se eu publiquei em uma área de pouca visibilidade.

Pequenas Notáveis. 16.200 membros. Dedicado a proprietários de motos de baixa cilindrada. 71 visualizações e 7 respostas. A maioria das pessoas apoiou o texto. O interessante foi que o administrador fechou o tópico (isso impede que outras pessoas escrevam, mas não impede a leitura). O motivo alegado foi que havia “possibilidade de brigas” e que essas idéias já tinham sido muito discutidas no fórum. Eu não sei até que ponto ele leu o meu texto, em que defendo a integração de todos, ou se o seu ato foi baseado apenas no título. Mas é estranho esse tipo de censura, já que quase todos estavam concordando. Mesmo depois de fechado o tópico, eu continuei a receber mensagens por e.mail me apoiando pelo texto.

Falcon Online. 8.000 membros. Formado principalmente por quem tem moto Honda Falcon 400cc. 77 visualizações e 12 respostas. Metade das pessoas que responderam não concordava com a minha opinião, mas continuaram a discussão, apresentando o seu ponto de vista. Não foram críticas, mas contribuições. A outra metade se dividiu em elogios e críticas. O nível da discussão aqui foi muito bom. O problema é que eu sou um participante antigo desse fórum, então não sei até que ponto as pessoas “se seguraram” nas críticas por consideração a quem estava escrevendo.

M@D. 4.300 membros. Fórum dedicado a todos os tipos de motos. 170 visualizações e 18 respostas. Um destaque importante é que tem o termo “motociclistas” no nome do fórum. Esse foi o grupo da internet com maior atuação política dos usuários. O primeiro a responder foi um usuário com o quinto maior número de mensagens no fórum. Criticou o tamanho do texto e disse que não leu. Vários outros usuários reproduziram a mesma opinião. Seguiram-se então duas respostas diferentes, uma elogiando e a outra argumentando em sentido contrário. Mas logo depois uma ação de um outro usuário influente tentando simplesmente acabar com a discussão. Seguiriam então várias outras respostas no mesmo sentido. Esse ataque é estranho, pois as respostas fazem com que o tópico fique sempre na parte mais visível da página. Se fosse algo irrelevante, ninguém perderia tempo respondendo. Duas coisas ficam claras: esse tipo de discussão não é interessante para aquele fórum e há uma forte manipulação política das discussões. O que não fica claro é se essa manipulação política vai no sentido de consolidar opiniões no fórum ou se é apenas uma luta pelo fortalecimento das imagens individuais.

Fórum XT660. 1.300 membros. Formado principalmente por quem tem motos Yamaha XT660. 42 visualizações e 2 repostas. As duas respostas foram para continuar a argumentação.

Em resumo, quando lancei a minha opinião nos fóruns, obtive:

– Apoio dos participantes de motos pequenas.
– Continuação da argumentação pelos fóruns específicos (400cc e 660cc).
– Censura por parte do administrador do fórum de motos pequenas.
– Censura política por parte do fórum de múltiplas motos.

As críticas foram no caminho de sempre: o maior conjunto de besteiras já visto na internet, mais uma teoria da conspiração, texto muito longo, cansativo e com muita frescura. Eu acrescentaria sectário, polarizado, fragmentado e raivoso. Nada mal para um mero texto de blog escrito às pressas. Desta vez não cheguei nem a 10 defeitos.

Conclusão

Continuo achando que a divisão entre motoqueiros e “motociclistas” é um grande erro, que não serve aos interesses de quem anda de moto. Concordo que o texto foi muito longo e confuso, mas não se deve criticar tanto um mero texto de blog. Quando eu for escrever o “Manifesto do Motoqueirismo” tomarei mais cuidado, prometo.

Hoje em dia, a discussão sobre a divisão entre motoqueiros e “motociclistas” é assim nos seis grandes espaços:

— Organizações. Associações de fabricantes, órgãos do governo e sindicatos. Não posso dar opinião porque não tenho nenhum contato.

— Jornais. Desvantagem: colocam motoqueiros como bandidos. Vantagem: têm competência para investigações e grande circulação.

— Revistas. Desvantagem: apenas vendem produtos para “motociclistas”. Vantagem: têm recursos financeiros e grande circulação.

— Reuniões de amigos. Desvantagem: são formadas por grupos de pessoas que já têm a mesma opinião e não são discussões que alcançam o público. Vantagem: pessoas que estão conversando em um ambiente em que normalmente estão as motos, além de ser entre amigos.

— Blogs. Desvantagem: mostram apenas uma visão e têm pouca circulação. Vantagem: são independentes e apresentam uma visão consolidada. Melhorariam muito com o fortalecimento de uma blogosfera sobre motos.

— Grupos da internet. Desvantagem: não conseguem consolidar uma opinião e a maior parte das conversas são apenas para “vencer” a briga. Vantagem: imensa diversidade de opiniões.

Parece, então, que não há solução. Todos os espaços de discussão têm suas deficiências. Vamos continuar a ser vistos ou como bandidos ou como consumidores.

Eu acho que há uma outra solução, que é usar todos esses espaços ao mesmo tempo. Unir as vantagens de cada um. Os grupos de internet têm a diversidade, os blogs têm a independência e a opinião, as reuniões têm a experiência real das pessoas, as revistas têm recursos financeiros e os jornais têm poder de investigação. Cada um desses espaços pode absorver o que o outro tem de bom e criticar o que tem de ruim. Dessa conversa entre blogueiros e participantes de fóruns, entre os assinantes e as revistas, entre os jornais e o governo, é que poderemos criar a grande cultura daqueles que andam de moto: o motoqueirismo. Essa cultura tem que ser muito diversificada, pois somos muito diferentes. Mas também tem que ter algumas opiniões bem claras, para avançarmos na defesa dos nossos interesses. Só é preciso tomar cuidado para não transformar uma conversa em uma briga. Nós não ganhamos nada com brigas entre nós.

Essa união de vários meios é incrível. Por exemplo, juntando os fóruns e o blog, foram 500 pessoas com acesso ao texto do motoqueirismo em 12 horas. A maior parte pode ter achado o texto pedante, mas as discussões me ensinaram muito. Alguns responderam com cuidado, me mostrando um novo ponto de vista. Outros responderam de forma bastante virulenta ou politizada. Isso também ensina bastante, pois mostra que esse tipo de texto incomoda. Eu só não sei se o que incomoda é o conteúdo (motoqueirismo) ou a forma (texto discursivo longo).

A idéia do motoqueirismo foi espalhada. Que seja uma contribuição para a união de todos aqueles que andam de moto, contra qualquer tipo de preconceito.

11.01.2012 (continuação)

O motoqueirismo reúne todos os que andam de moto, considerando todas as visões. Andou de moto é motoqueiro. O “motociclismo” divide os motoqueiros em dois tipos.

Eu tenho uma crença, de que todo mundo que anda de moto tem uma essência com os seguintes componentes: inconformismo com controles ideológicos, uma grande necessidade de entrar em contato com o mundo real através dos sentidos (sem o controle do consciente) e a vontade de testar os limites da vida/morte. Na realidade, eu acho que essa é a essência de todo e qualquer indivíduo, mas penso que o andar de moto é um veículo para trazer à tona essa experiência. Em outras palavras, acredito que quem decide andar de moto o faz porque está em busca dessa essência, está em busca de se libertar das ideologias, de ter uma experiência existencial com o mundo real e testar filosoficamente o significado da vida.

Essa campanha do “motociclismo” (em parte financiada pelas montadoras, publicada pelas revistas que só vendem produtos e apoiada pelos governos que querem controlar tudo) vem contra essa essência do motoqueiro. É ideológica e tenta enquadrar o motoqueiro.

Claro que há motoqueiro chato, bandido, perigoso e inconveniente. Mas para isso existem as palavras ‘chato’, ‘bandido’, ‘perigoso’ e ‘inconveniente’. Claro que há motoqueiro inteligente, livre, caótico, revolucionário e harmonioso. Mas para isso existem as palavras ‘inteligente’, ‘livre’, ‘caótico’, ‘revolucionário’ e ‘harmonioso’. Motoqueiro não é sinônimo de nada disso. Motoqueiro é quem anda de moto. Simples assim.

A campanha do “motociclismo” tenta destruir essa essência, associando coisas diferentes. Por exemplo: “se você não bebe E é limpinho, então é motociclista”, “se você mata os outros E anda com a viseira levantada, então é motoqueiro”. Essas coisas não têm nada a ver umas com as outras.

Eu sou totalmente a favor de campanhas para não bebermos e para não colocarmos a vida dos outros em perigo. Eu acho que um motoqueiro que anda na calçada ou anda com um bebê na garupa deveria perder a carteira para o resto da vida. Mas acho que essas campanhas podem ser feitas 1) sem mudar o sentido de uma palavra que sempre existiu em português (motoqueiro é quem anda de moto) e, principalmente, 2) sem associar características que não necessariamente andam juntas. Eles começam a dizer que “motociclista” não bebe (tudo bem), depois começam a defender que “motociclista” não faz barulho no trânsito. Uma coisa não tem nada a ver com outra. Essa ideologia é perigosa.

Só tenho certeza que toda discriminação é ruim. Concluindo minha postura: andou de moto é motoqueiro.

01.09.2013 (continuação da continuação)

Eu não divido quem anda de moto em dois grupos: motoqueiros de um lado e motociclistas de outro. Primeiro, porque eu teria que julgar quem é “mauzinho” e quem é “bonzinho”, coisa que não vou fazer porque não sou juiz. Segundo, porque essa separação entre motoqueiros e motociclistas serve na realidade para as autoridades e para as fábricas lavarem a mão de suas responsabilidades. Afinal, para eles, só os motoqueiros se matam, motociclistas nunca! Para eles, a culpa é sempre do motoqueiro, portanto, ainda para eles, não é preciso melhorar o projeto das motos e não é preciso trabalhar direito na fiscalização-legislação-educação e não é preciso melhorar as vias. Além disso, dividir quem anda de moto em motoqueiros e motociclistas serve para a classe média se sentir “diferenciada”. E serve para a mídia vender jornais e revistas e programas de TV e corridas e roupas e motos para “pessoas diferenciadas”. Para mim, todos que andam de moto são motoqueiros. Simples assim.