Maragogi-AL (III)

01-02.05.2010

Enquanto o Dandito (Dante) ainda sonha brincando com a sua motinha de brinquedo, a Bela (Gabriela) saiu pela estrada pela primeira vez. Fomos passar o final-de-semana em Maragogi-AL, uma cidade de praia bem perto da divisa entre Pernambuco e Alagoas.

A saída para a estrada sempre é feita com algumas mudanças. O espelho retrovisor é ajustado para ver mais ao longe – às custas de detalhes próximos – e a mente é focada mais na pilotagem do que no comportamento errático dos outros motoristas. Desta vez também fiquei bem mais tenso que o normal, pois a carga era muito preciosa.

Eu e a Gabriela fomos de moto. Mais tarde saíram de carro a Renata, Dante e a babá do Dante, para nos encontrar lá em Maragogi-AL.

O caminho de Recife-PE para Maragogi-AL é como uma aula de geografia: zona urbana, zona industrial, zona turística, zona de pesca, zona canavieira, mata atlântica, coqueirais e, finalmente, a vista do mar na divisa entre os estados, em um dos trechos de estrada mais legais do Brasil.

Como era a primeira viagem da Gabriela, paramos depois de andar 100 km, em Tamandaré-PE. Para chegar lá é preciso passar na Reserva do Saltinho, uma mata que engolfa a estrada. Aqui a Gabriela sentiu pela primeira vez o que é “fazer parte da paisagem”, pois na moto você sente de tudo: calor, frio, umidade, cheiro das matas e o som do vento.

Nesse trecho ao sul de Recife-PE há cidadezinhas muito diferentes entre si. Porto de Galinhas-PE é uma cidade só para turistas, com hotéis que se parecem shoppings e muita gente de fora. Já a Barra do Sirinhanhem-PE é uma cidade pacata, de pescadores. Nesse aspecto, Maragogi-AL fica entre as duas, uma cidade turística para o pessoal da região. Mas há muita gente que vive ali mesmo.

Como é baixa temporada, não conseguimos encontrar cavalos, banana boats ou caiaques. O único passeio disponível era o mergulho nas galés, que já havíamos feito outras vezes. Mas a Gabriela aproveitou bastante o passeio de farpinha, sentindo como é controlar um veículo motorizado na areia da praia.

Assim com da última vez, fomos atacados por uma água-viva. Da outra vez foi a Renata, desta vez fui eu. Tinha acabado de nadar com a Gabriela naquele lugar e, apenas alguns segundos antes, tinha passado o Dante para o colo da Renata. Daí senti a queimação. Curioso é que a primeira coisa que vem à mente é: que bom que a Bela, Dandito e Renata não estão aqui comigo agora…

À noite a Gabriela, que vem fazendo trilhas, rastejando em cavernas e agora viajando de moto, fez uma tatuagem de hena com os ideogramas de “coragem”. Mas ela também tem estudado bastante – e com gosto -, cultivado amizades, buscado cultura, lido, escrito,  se divertido mas sem se arriscar querendo tolamente provar algo para os outros e dado valor na medida certa para o presente e o futuro. Fiquei tão orgulhoso que até comprei uma camisa do Grêmio para ela. Vimos ainda a lua cheia nascer no mar, subindo toda amarela e imensa, depois ganhando o céu e ficando cada vez mais branca.

Na volta, saímos com a moto mais cedo, para parar um pouquinho em Barrra do Sirinhaem-PE. Conseguimos conversar bastante sobre motos. Papo de pai e filha sobre como é legal dar ciao para as crianças que nos olham na estrada, conhecer pessoas diferentes nos postos, aprender as manhas da estrada como nas lufadas de vento nas passagens de ponte.

A Gabriela achou engraçado um cara que veio conversar com a gente em uma das paradas. Ele só perguntou qual era a cilindrada da moto e depois começou a contar a história da sua vida: falências, invenção de motores, motos que já teve, reerguimento como entregador de água mineral etc.

Daí conversamos que uma das coisas boas de se viajar de moto era isso mesmo, conhecer pessoas diferentes. Não que a moto faça as pessoas serem mais inteligentes, honestas, interessantes ou parecidas com a gente, mas certamente faz que seja muito mais fácil conhecermos pessoas assim.

Depois de uma onda de calor muito forte aqui na região, a Gabriela pegou até um chuvinha fraca que serviu para selar o batismo dela. Pode não parecer muito andar 350 km na primeira viagem, mas foi bem mais do que na minha vez, em que o trecho não passou dos 30 km.

Bela, seja bem vinda à estrada. Dandito, fique de olho que logo logo é a sua vez. Renata, obrigado por me acompanhar em mais essa viagem. Amo todos vocês, meu motoclube!

Fotos:

Gabriela e Fábio na saída para a estrada.

Gabriela na praia de Tamandaré-PE

Dante e Renata, em Maragogi-AL.

Gabriela fazendo uma tatuagem em Maragogi-AL.

Lua cheia em Maragogi-AL

Dante em Maragogi-AL

Gabriela, Fábio e Dante em Maragogi-AL.

Dante sonhando com o futuro, Recife-PE.

Gabriela vivendo o presente, em Barra de Sirinhaem-PE.