GPS

13.07.2009

Desde criança eu sempre gostei de estar às voltas com mapas, bússolas e enciclopédias geográficas. Até hoje, no banheiro da minha casa, ao invés de uma revista para ler naquelas horas, há um mapa do Brasil no qual fico planejando minhas viagens.

No entanto, por mais incrível que possa parecer, sempre tive extrema aversão a GPSs. Preconceito mesmo, literalmente, porque nunca tinha chegado perto de um. Toda vez que lia um relato ou ouvia alguém falando de GPS eu já ficava gozando. Sempre defendia que o meu negócio era andar com um mapa e a minha boca. Gostava de parar pelas cidadezinhas para perguntar qual era o caminho, de me perder eventualmente. GPS era coisa de boyzinho, de quem tem preguiça de pensar, de quem é mandado… e por aí vai.

Com a iminência da viagem ao Atacama, comecei a imaginar a possibilidade de me perder no deserto, sem saber para onde ir. Bem… não ia ter jeito, teria que ter um GPS.  Mas só para não me perder!

Comecei a pensar melhor sobre o assunto e compreendi a minha raiva aos GPSs. Eu não tinha problema algum com um aparelho que me dissesse onde eu estava, nem que me mostrasse o caminho de volta caso eu me perdesse. O que eu não gostava era de um aparelho que me dissesse para onde ir, que tomasse as decisões para mim! Não era do GPS que tinha raiva. O papel do GPS é dizer onde você está. Eu não gostava era do software com mapinha que tomava a decisão sozinho. Eu não queria um aparelho que me dissesse para onde ir, mas sim que simplesmente me dissesse onde eu estava.

Como apareceu uma grana imprevista, eu resolvi comprar o tal do GPS. Enfrentei a gozação daqueles que sempre me ouviram falar mal dos GPSs e declarei o que queria: “quero um GPS bem simples, que me diga onde estou e pronto!”. Até olhei na internet e vi que havia um tal de GPS Garmin amarelinho. Achei que seria aquele mesmo.

Na hora de comprar, por alguma razão fiquei apaixonado por outro GPS: o Mio c320 da Quatro Rodas. Tela touch screen, mapas de todo o Brasil, informações do guia quatro rodas, colorido. Achei que faria o que o amarelinho faz e muito mais.

Sem hesitação comprei o Mio. Sem entrar em nenhum fórum comprei o Mio. Sem ler nenhum “product review” comprei o Mio. Confiei que um produto da Quatro Rodas seria o ideal para mim. Mas quando chegou apareceram os problemas. Quer dizer, não são defeitos, mas características do produto que não serviam para mim. Queria outra coisa. Depois eu  aprenderia nos fóruns que esses aparelhos como o Mio se chamam PDA ou PND (Assistentes ou Dispositivos de Navegação Pessoal) ou “Navegadores” . Não foram feitos para registrar o lugar onde se esteve, mas sim para te ajudar a navegar por estradas. Outro problema é que não era à prova d’água, não permitia mapas do Chile e grande demais para caber no bolso da calça. Sem contar que funcionava relativamente bem em Recife-PE, mas bastou irmos um pouco para o interior, em Gravatá-PE, para ele se perder completamente. Acho que isso vem da tradição da Quatro Rodas ter quase que somente informação sobre o litoral; mas deixemos essa crítica para outro lugar. Tentei instalar novos softwares no Mio que pudessem registrar o caminho feito, mas não rodavam de forma satisfatória. O Mio Quatro Rodas é um aparelho legal para quem quer andar de carro em cidades grandes. Mas não é bom para quem quer andar de moto, por estradas e trilhas pouco conhecidas e principalmente precisando eventualmente voltar para a civilização.

Nesse ponto comecei a me arrepender da compra e a fazer o que deveria ter feito desde o início: procurar informações. Comecei a ler o Potal GPSGPS Passion e comprei o livro “Outdoor Navitation with GPS”. Aprendi a diferença entre GPSs  e navegadores, tipos de coordenadas e mapas, importância de uma bússola, como escolher o melhor modelo, como navegar depois que o GPS quebrar etc.

Na última seção do livro, vi que talvez o Garmin amarelinho não fosse o mais indicado por falta de memória. Mas que um outro parecido com ele seria o ideal para mim. Comprei então o Garmin Etrex Legend Cx.

Assim que o aparelho chegou vi que ele fazia exatamente o que eu queria:

  • diz onde estou
  • registra o caminho que andei
  • funciona off-road
  • permite baixar mapas de outros países
  • tem uma rede de usuários voluntários que constroem mapas e waypoints
  • é à prova d’água
  • usa pilhas comuns, que podem ser compradas em qualquer lugar
  • cabe no bolso da minha calça

O aparelho tem algumas desvantagens em relação aos outros modelos mais caros:

  • Não é touch-screen
  • Pouca memória
  • A transferência de dados do PC é muito lenta
  • Não tem recepção tão boa perto de canyons e florestas
  • Não tem barômetro, consequentemente um erro maior na estimativa da altitude
  • Não tem bússola magnética

Mas para o que eu quero está muito bom.

O livro também me convenceu da importância de comprar uma bússola de qualidade para usar junto com o GPS. Os GPS comuns como o meu não possuem bússola. Eles dizem onde você está e para que direção em relação ao norte você deve ir (bearing), mas não para onde você está virado (heading). Movimentando-se um pouco, é possível descobrir se você está se aproximando ou não do alvo, mas sem precisão. Já outros GPS têm uma bússola magnética integrada. Mas o ideal é andar sempre com 3 equipamentos: GPS, mapa e bússola. É melhor trabalhar com bússola não integrada ao GPS porque se acabar a pilha ou quebrar o GPS, você ainda tem a bússola e o mapa. Com uma bússola e um mapa, realizando uma triangulação você consegue determinar em que lugar está.  O bom é que a bússola tenha correção de declinação.  Os mapas e a configuração padrão do GPS apresentam as coordenadas em relação ao polo geográfico (true pole). Já as bússolas apontam para o polo magnético (magnetic pole). Para orientar-se usando uma bússola e um mapa – de forma que os dois apontem para o mesmo lugar -, é preciso fazer uma correção na bússola, chamada de declinação. Por exemplo, a a declinação em Recife (8º 04′ S  34º 87 W) (janeiro de 2010): 22° 7′ W e a declinação no Atacama (24° 30′ S 69° 15′ W) (janeiro de 2010): 3° 1′ W. A bússola que comprei foi uma Suunto M-3.

Quanto ao Mio c320, foi transferido os meus pais, que costumam viajar de carro para cidades maiores de São Paulo. Pronto, cada coisa em seu lugar.

Para a navegação, além do Garmin Legend Etrex Cx e a bússula Suunto M-3, comprei também alguns mapas de papel:

  • Mapa rodoviário do Brasil – Quatro Rodas
  • Mapa rodoviáro do Chile – Rough Guide
  • Mapa rodoviário da Argentina – Rough Guide
  • Mapa rodoviário do Cone Sul – Zagier & Urruty

Existem mapas topográficos (com curvas de nível e normalmente com trilhas) e planimétricos (planos, comumente rodoviários). Para a viagem ao Atacama os planimétricos já são suficientes. Não encontrei mapas topológicos detalhados ou os famosos “15-minute maps”, mas isso não adiantaria porque seria muito peso para levar na moto, já que a região que vamos andar é muito grande.

Tudo muito bom em relação aos mapas de papel, mas o GPS Garmin ainda tinha um problema: um mapa com poucos detalhes e estradas. Mas logo descobri algumas fontes interessantes:

Todos os sites distribuem material livremente. A maior parte é de de mapas planimétricos, mas há também alguns mapas topológicos. Existe a possibilidade de comprar-se mapas topológicos do Chile na CentroGPS (representante da Garmin no Chile), mas custam US$ 150,00. Sem contar que o pagamento não é por cartão de crédito, envolvendo alguma transferência bancária internacional.

Depois de baixar os mapas dos sites acima, é só usar o software MapSource (da Garmin) para transferir para o GPS.  No programa MapSource é possível também colocar os WayPoints (pontos de interesse que ficam guardados no GPS).

Viagem ao Atacama

Sobre a viagem ao Atacama, neste momento já tenho o material comprado (bússola, mapas e GPS). A lista com os 38 pontos a serem visitados na Argentina e Chile (9.130 km em 25 dias) já está pronta e configurada no GPS, juntamente com os mapas planimétricos.

O problema é que os mapas do Chile não são muito precisos no deserto. Cada mapa diz uma coisa diferente. A ação a ser tomada agora é entrar no Google Maps e verificar cada um dos pontos nas imagens por satélite. São cerca de 15 que ficam longe das cidades ou estradas conhecidas. Esse levantamenteo parece que vai ser relativamente fácil porque as estradas se destacam no deserto. Só espero que sejam as estradas certas. Outra alternativa que tentei foi buscar as coordenadas na internet, mas essas informações são muito desencontradas. Não dá para saber se a pessoa esteve lá realmente ou está estimando a posição por um mapa.

Outras atividades com GPS.

Estudando o livro “Outdoor Navigation with GPS” aprendi também que a comunidade de GPS realiza uma série de atividades muito interessantes. Dá para fazer com a família, mesmo sem a moto.

  • Orienteering. É a própria orientação usando GPS, bússola e mapa.
  • Geocaching. Alguém coloca as coordenadas de um “prêmio” (“cache”) na internet, daí as pessoas têm que encontrar. Caso queiram ficar com o “prêmio” – que é algo bem barato -, deve deixar outro brinde no lugar.
  • Geodashing. Uma série de pontos são gerados aleatóriamente ao redor do mundo. Ganha o jogo quem conseguir chegar próximo do maior número de pontos.
  • Cache reverse. São especificadas várias categorias de lugares: orelhões, cachoeiras etc. Então as pessoas enviam as coordenadas de lugares que estejam incluidos nessas categorias. Com o tempo são criados banco de dados com coordenadas para os mais diversos tipos de atrações.