Por Que Eu Ando de Moto

Antes de ir ao Atacama eu sempre ouvia duas perguntas. Por que ao Atacama? Por que de moto? Espero que os textos inéditos que formam as Crônicas do Atacama estejam respondendo a contento o porque eu escolhi ir a um deserto ao invés de uma praia cheia de gente, uma montanha famosa ou uma cidade turística. Já a escolha de viajar de moto é um tema sobre o qual eu já vinha publicando vários pequenos textos ao longo do tempo. O que se segue é uma coletânea desorganizada dessas ideias espalhadas ao vento.

Eu decidi que teria uma moto em meados de 2005. Mas teria ainda um ano e meio antes de ter condições de comprar a máquina. Não conhecia ninguém que tivesse moto, então a minha visão do que seria o universo da motocicleta acabou sendo construído a partir das histórias dos autores que li naquela época. O primeiro livro que li foi o “Proficient Motorcycling” de David Hough, que discursava sobre contra-esterço, estatísticas do relatório Hurt e segurança em geral. Logo depois, li o “The Essential Guide to Motorcycle Maintanance” de Mark Zimmerman, um livro que desmonta a moto peça a peça para discutir a sua manutenção. O que me marcou mais foi um traço comum destes dois livros, um de pilotagem e o outro de manutenção, e que provavelmente era até secundário para os autores: os dois falavam que gostavam de lavar a moto no sábado e dar uma voltinha de 400 milhas no domingo pela manhã. E essa foi a imagem que passei a ter: um cara pega a sua moto e sai por aí sem destino. Sem necessariamente parar em lugares bonitos, sem comer, sem nada demais. Só pela estrada. Isso entrou em consonância com a minha experiência juvenil. Desde que tive a minha primeira bicicleta, uma Monareta, andava sempre no máximo possível permitido pelos meus pais. Se deixavam ir até à avenida central, fica perambulando todos os dias até esses limites. Até que um dia, com a minha Monark Super 10, já adolescente, peguei a estrada. Vivia andando pelas cidades da região. Quando mudei para Florianópolis, levei a minha Super 10 para rodar por toda a ilha. Nem me lembro de quantas vezes tive que voltar com o pneu furado para casa: empurrando, de trem, de Kombi… e o engraçado que não me incomodava, eu simplesmente gostava daquilo. Então esse negócio de andar de moto era a mesma coisa que tinha feito minha infância/juventude toda? Legal. Depois desses dois livros, peguei meio que em sequência “One Man Caravan” de Robert Fulton Jr, “Jupiter Travels” de Ted Simon e “Long Way Round” de Ewan McGregor & Charley Boorman. Todos os três sobre viagens de moto ao redor do mundo: 1932, 1973 e 2004. Traço comum? Todos eles eram grandes amadores. Caiam, cometiam erros mecânicos, se perdiam. Então esse negócio de andar de moto era possível para qualquer um? Legal. Depois acabei lendo mais um montão de livros sobre motoqueirismo e essa visão, construída pelos livros, acabou nunca deixando a minha mente. Mesmo com o passar do tempo, com a chegada dos amigos reais, com a compra da moto real; para mim, essa estória toda de andar de moto sempre foi pela mesma razão, que é a que segue. Um carinha qualquer sem habilidade nenhuma acorda pela manhã, liga a sua moto e fica 6-8-10-12 horas em sua moto. Quando volta para casa não tem muito que contar sobre onde parou, o que comeu e o que conheceu. E dentro da sua cabeça só um pensamento: eu daria tudo para estender 1000 vezes esse dia, para acordar todos os dias fazendo exatamente a mesma coisa. Só isso! Não consigo entender o gosto pelas grandes velocidades, não consigo entender o gosto pelos motoencontros, não consigo entender o gosto por visitar pontos turísticos. Não estou criticando quem gosta não! Só não entendo. Entendo apenas o que é tentar atingir a harmonia em cima de uma moto. Só isso!

Quando alguém compara a tecnologia, a potência, o peso, o tamanho e a utilidade de um Uno Mille e de uma XT660, fica abismado como podem custar a mesma coisa. Como pode uma moto mirrada daquela – que só tem o motor e mais nada – custar a mesma coisa que um carro que te protege da chuva, do vento, do sol, de batidas, de assaltos, leva quatro pessoas, transporta compras etc.? Mas, quando outra pessoa vê a sensação de liberdade, a aceleração, o prazer e o estilo, então, ao contrário, fica abismada como um carro tão sem graça pode custar tanto quanto uma maravilha em duas rodas que pode ser a expressão de uma vida. Eu posso ser bobo, mas, por pior que seja do ponto de vista financeiro, eu não consigo achar alto o preço da moto. Quando eu fico imaginando como a minha vida seria sem graça com um carro, acho que a moto custa é pouco!

Pode até ser coisa de maluco, mas eu tenho o costume de conversar com a minha moto durante as viagens. Conversa mesmo, nos dois sentidos! Bem, ouvir a moto acho que é até natural. Todo motoqueiro fica prestando atenção no que a moto está dizendo. Se está com alguma peça batendo, se está com o motor engasgando ou com um ronco diferente. Mas, além de ouvir, eu também falo com ela. Converso sobre o nosso destino do dia, mostro algum lugar bonito no horizonte, conto uma história sem importância e até dou um tapinha no tanque dela depois que conseguimos passar por algum desafio. Dependendo do dia, até faço uma cantoria para ela. Um psicanalista diria que estou fazendo uma projeção (ou seria uma transferência?), que no fundo eu estou falando com o meu eu interior. Um lógico diria que estou sendo irracional, pois a motocicleta não tem sensores de som. Um religioso diria que estou falando com algum deus da ordem, pedindo proteção contra o caos. Talvez o motoqueirismo seja a procura da união da ordem (projeto mecânico) e do caos (a vida com seus riscos e acasos). Não o domínio de um sobre o outro, mas a união mesmo. E eu, que não vejo as quebras como eventos necessariamente ruins e também não tenho nada contra o caos ou a ordem, não teria nada a pedir. Só vou conversando mesmo, como se fosse uma velha amiga…

É claro que andar de moto tem um lado bom e outro ruim. Se fosse só bom, todos andariam; se fosse só ruim, não venderiam nem uma moto sequer. O lado ruim é fácil falar. Todo motoqueiro ouve a lista todos os dias: a moto é perigosa, barulhenta, de baixo poder de revenda, fácil de ser roubada, pouca capacidade de carga, traz consigo o estigma da marginalidade e inevitavelmente suja os seus passageiros. Concordo com tudo. Mas a questão é que as vantagens superam os pontos negativos. O ponto mais fácil de rebater é esse negócio de que você se suja muito quando anda de moto. Ou então, que tem que ficar colocando e tirando a capa toda vez que muda o clima. Andar de moto é como fazer amor: você tem que tirar a roupa para depois colocar de novo, fica todo suado, cansado e sujo. Mas vale a pena!

Mas agora falando sério – bem, eu estava falando sério antes sobre fazer amor -, não tenho a intenção de proselitismo. Sei muito bem que para algumas pessoas não vale a pena andar de moto. Não quero convencer ninguém. Só quero dizer porque eu ando de moto. A razão mais pragmática da moto é a acessibilidade. Você estaciona em qualquer lugar, anda na terra, em buracos e no meio do trânsito. Vai para lugares onde os carros não vão. Vai até pertinho do mar, sobe em montanhas e entra no quintal das pessoas para tomar água. Mas acho que há coisas bem mais importantes que isso. No silêncio do seu capacete, você fica em contato com o seu mundo interior. Sozinho na estrada, tornado irreconhecível pela vestimenta, não há nada a provar para ninguém. Você pode rir sozinho, cantar desafinado, pensar nas mais loucas fantasias ou, acima de tudo, aprender a conviver com você. Lá não há como se proteger de você mesmo usando estímulos externos como a TV, a companhia de outras pessoas ou o trabalho incessante. É você e você, goste do que está vendo ou não!

Paradoxalmente, a moto é o local onde você também tem um contato muito forte com o mundo externo. Mas não o mundo artificial da sociedade, com suas cobranças e expectativas. O piloto tem contato com o vento, os raios solares, a visão do horizonte, o cheiro do mato, o calor do asfalto, com as forças da gravidade e da inércia. Essa experiência direta com o mundo real, junto com o contato com o eu verdadeiro, é que faz com que a experiência de andar de moto seja viciante. O que pode ser perigoso. Andar de moto não deve ser usado para escapar do mundo do dia-a-dia. Andar de moto tem que ser um aprendizado para mudar o mundo. Isso tanto através do autoconhecimento, quanto da visão do mundo real, sem os filtros sociais.

Tem um outro aspecto de andar de moto que me traz certo prazer, mas que às vezes acho ser um pouco doentio. É que andar de moto, arriscando a sua vida, com uma roupa toda diferente, certamente destaca você das outras pessoas. Por bem ou por mal. Você se sente diferente sendo um motoqueiro. Penso que esse sentimento tem que ser muito bem trabalhado. Se você usa essa imagem de motoqueiro para humildemente inspirar as outras pessoas a darem mais valor para o que realmente importa, então tudo bem. Mas se essa imagem é usada para desprezar os outros, amedrontar, afastar, diferenciar ou rebaixar, então tudo vai por água abaixo. Se o motoqueirismo for usado como símbolo da rebeldia, algo vai errado. Se for usado como símbolo da liberdade – liberdade até para não gostar de motos -, então estamos no caminho certo. Rebeldia nem sempre é a mesma coisa que liberdade, embora tente usar essa roupagem. Algumas pessoas – seja no motoqueirismo ou fora dele -, usam a imagem da rebeldia para defender as guerras, o preconceito, o ódio, a discriminação, a imutabilidade da hierarquia social, o seguimento cego às regras, a violência, a ignorância e o crime. São rebeldes extremamente conservadores. Tenhamos cuidado com essa armadilha!

Uma grande diferença entre pilotar uma moto e dirigir um automóvel é o nível de atenção despendido. Para andar de moto seus olhos precisam ficar sempre atentos, vasculhando todos os cantos, antecipando o movimento dos outros. Seu corpo, flexível, precisa estar sempre preparado para as manobras. Já em um carro você pode andar com o corpo relaxado e com uma atenção principal voltada para frente. Essa grande atenção na moto faz com que você canse mais rápido, é certo. Mas por outro lado, como boa parte do pensamento é usado na pilotagem, sua mente tem que se livrar daqueles pensamentos espúrios. Sabe quando você está dirigindo um carro, mas fica pensando nas contas a pagar, na briga com o chefe e com a agenda do dia seguinte? Em cima da moto você não consegue fazer isso. O que resta do seu pensamento vai para coisas realmente importantes: seus sentimentos naquele momento, uma boa lembrança, a observação de uma pessoa interessante na beira da estrada, uma poesia ou uma música. Interessante como a falta de alguma coisa faz você usá-la com mais sabedoria. Sobrando só um pouquinho da sua mente, essa parte é usada para o que realmente importa.

Agora vamos para as questões filosóficas do motoqueirismo. Quem anda de moto tem uma relação muito mais direta com a própria mortalidade. Cada dia, cada vez que você sobe na sua moto, você está dizendo para si mesmo: eu sei que posso morrer, mas também sei que vale a pena viver. Quando você está em sua moto, você aprende pouco a pouco a sempre pensar quando vale – ou não vale – a pena tomar riscos. Não são todos os riscos que valem a pena: costurar no trânsito, bebida, excesso de velocidade, empinar a moto e outras atitudes, algumas vezes são formas de suicídio. Penso que só pessoas desesperadas com a vida têm comportamento tão arriscado. Mas, por outro lado, vale a pena arriscar uma queda para sentir o vento, o sol, as forças da natureza em ação e o contato com o eu verdadeiro. Acho que quem anda de moto consegue mais facilmente tanto aceitar que a morte é inevitável quanto viver plenamente enquanto ela não chega.

Quem anda de moto – embora este argumento valha para qualquer viajante – também tem que ter uma relação muito saudável com a inevitável decadência das coisas e com o acaso. O tempo todo você sabe que sua moto pode quebrar, que pode furar um pneu ou que você pode se perder. Quem fica estressado com isso simplesmente tem que desistir de andar de moto, pois essas coisas acontecem o tempo todo. Mas quando você aceita, então sim a viagem fica muito mais rica. Imprevistos são oportunidades para você aprender mais sobre a mecânica da moto, para usar o seu conhecimento, para conhecer pessoas ou, mais importante ainda, aprender a confiar nelas.

Até agora falei só sobre andar sozinho de moto. Mas andar com outras pessoas também é recompensador. A intimidade com a sua mulher agarrada em você, a confiança mútua necessária para jogarem-se nas curvas, o sentimento de vitória depois de um trecho cansativo, as histórias que vão contar juntos e as sensações durante a viagem, tudo isso fortalece a união. Mas, além disso, andar de moto permite que cada um tenha a sua individualidade em companhia do outro. Cada um tem os seus próprios pensamentos, seus próprios valores, embaixo do capacete. Sem medo de magoar o outro ou de ser censurado. A mente vaga entre a mais completa independência e a mais total união representada pelo contato dos corpos. Assim devem ser as uniões: dois seres completamente independentes, com pensamentos próprios, mas caminhando juntos.

Outro jeito de andar de moto é com um grupo de amigos, cada um em sua moto. Nesses grupos as pessoas não são divididas pelo emprego, educação ou posição social. O único interesse é andar de moto. Isso não significa que todos motoqueiros sejam amigos. Mas permite que você encontre pessoas com os mesmos valores que você, mesmo que em uma situação de vida completamente diferente. Elimina as máscaras.

Infelizmente, embora os motoqueiros não sejam divididos diretamente pelo seu papel social, são pelo tipo e cilindrada de moto. Isso tem uma razão prática, pois motos muito diferentes não conseguem andar juntas. Mas o principal ainda é a distinção econômica. Algumas pessoas usam a desculpa de uma moto com cilindrada diferente para menosprezar os outros. Isso é muito ruim. Espero que com o tempo essa separação vá diminuindo e que o único motivo dos agrupamentos sejam os valores compartilhados.

Da mesma forma que andar sozinho pode ser difícil para quem não consegue ter um contato consigo mesmo, andar em grupo pode ser um grande desafio para quem é muito individualista. Não posso esconder que esse é o meu caso. Quando ando em grupo, muitas vezes me vejo irritado por causa da velocidade e da prisão na escolha do caminho a ser trilhado. Mas também tenho imenso prazer por conviver com novos amigos, conhecer novas visões de mundo e compartilhar minhas alegrias sobre a moto com outras pessoas.

Como eu sempre digo, uma das maiores vantagens do motoqueirismo é a facilidade de encontrar outras pessoas com valores iguais aos seus. Eu nem sempre consigo aproveitar, porque exagero muito a minha individualidade. Mas, assim como uso o motoqueirismo para me conhecer, desbravar os limites entre a vida e a morte, compartilhar momentos importantes com a minha mulher e tocar o mundo real; também estou aprendendo a usar o motoqueirismo para encontrar o balanço entre a minha individualidade e o compartilhamento da vida com os amigos. Como dizem os pensadores, em um processo de transformar o individualismo em individualidade. Sem deixar de fazer o que é importante para você, mas sem abdicar de compartilhar a vida com pessoas que, também, são essenciais.

Por que eu ando de moto? Por várias razões. Porque é mais rápido, porque posso ficar sozinho, porque posso ficar junto, porque é filosófico, é psicológico, é espiritual, prosaico e aventureiro, anônimo e único, porque é clássico e é romântico, é elitista e é popular, é intenso e relaxante, estético, político e musical, porque é moto.

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Apresentação. A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho – percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 – lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: Planejamento (textos escritos antes da partida), Diário da Viagem (relatos publicados durante a viagem) e Crônicas do Atacama (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.