Estudos da Motocicleta [disciplina da pós-graduação: 2011.1]

19.03.2011

Engraçado que certas coisas são tão óbvias, mas tão óbvias, que a gente demora um tempão para perceber. Por exemplo, para mim, até um tempo atrás, não havia nada em comum entre o que eu fazia no trabalho e a minha vida de motoqueiro. Afinal, o meu trabalho desde 1997 é orientar teses, entre outros assuntos, sobre testes de motores, ensinar a teoria por trás da conversão da energia do combustível em movimento e desenvolver técnicas de otimização de máquinas térmicas. O que isso poderia ter de comum com as motos? Qualquer imbecil pode ver que tem tudo a ver. Menos eu. Só caiu a ficha há dois anos. Acho que essa ignorância vem da educação para achar que trabalho só pode ser sério, aborrecido e formal. Às vezes ainda me sinto culpado por trabalhar em algo que eu faria de qualquer jeito mesmo, de graça, só como hobby.

Mas, desde que veio o click, tudo começou a andar mais rápido. O primeiro passo foi a semi-profissionalização do blog Equilíbrio em Duas Rodas, que deixou de ter só notícias de passeios, passando a ter textos mais fechados sobre o motoqueirismo e trazendo informações sobre livros, cultura, tecnologia e história das motos. Mas isso ainda era uma atividade pessoal, feita nas horas vagas. Uma conseqüência natural do blog é a coluna sobre livros de moto na Revista Moto Adventure.

O segundo passo foi montar um projeto para o uso das motocicletas para estimular estudantes a gostar de ciências exatas. Não conseguimos aprovar o financiamento, mas o processo de construção do projeto foi muito importante. Como foi feito durante o trabalho, envolvendo vários outros profissionais, eu percebi que tinha o direito de trazer as motocicletas para o ambiente de trabalho. Afinal, se um pesquisador de Engenharia Mecânica não puder estudar motos, quem mais poderá?

O terceiro passo, no início de 2010, foi quando eu e o Ramiro Willmersdorf (um colega professor da UFPE) montamos a disciplina de Introdução à Engenharia da Motocicleta. Essa disciplina é bastante tecnológica, dividida em uma parte de propulsão e outra de ciclística. Nessa disciplina fazemos a descrição de todos os sistemas da moto (alimentação, motorização, transmissão etc), simulações computacionais dos motores e cálculos analíticos do comportamento dinâmico. A idéia original é que o curso seja ministrado todos os anos.

O segundo semestre de 2010 não teve atividades formais com as motos. Mas continuei a estudar por conta própria, mesmo sem financiamento. Continuei a comprar livros, juntar artigos, procurar teses e cadastrar informações da internet. Hoje tenho quase 200 livros sobre motos, todos comprados com o dinheiro do meu salário. A maior parte desse material é apenas o detalhamento do que eu já sabia: vida de motoqueiro, mecânica, tecnologia, competição e história. Eles trazem muita informação nova, mas a forma de pensar é mais ou menos a mesma. Só que, nesse meio, também há alguns autores que me mostraram uma nova forma de pensar. Há vários, mas eu queria destacar três.

Sei que isso não é desculpa, mas, acho que por ser engenheiro, eu nunca tinha dado muita bola para a área de Estudos Culturais. Por acaso eu comprei o livro Motorcycle, de Steven E. Alford e Suzanne Ferriss. Quando comecei a ler, parece que surgiu uma nova dimensão na minha compreensão do mundo das motos. Agora eu podia ver também a profundidade. Nesse livro, os autores discutem as várias visões de porque alguém anda de moto, a importância da arte na imagem dos motoqueiros e por aí vai. Outro texto que me ajudou muito foi a tese de doutorado Coletivo de Trabalho e Atividades de ‘Motoboys’, de Thiago Drumond Moraes. A teoria é um pouco complicada para alguém de minha formação, mas o legal é que o Moraes fala de uma situação perto da gente. Eu tenho muito pouco material sobre motociclismo fora dos EUA e Europa. A nossa situação é bem diferente, por isso é bem legal ler algo de alguém que olha as coisas por aqui.

É sempre injusto classificar as coisas, mas também é difícil falar sobre qualquer assunto sem usar categorias. Bem, de uma forma bem grosseira, eu classifico as possíveis atividades dos motoqueiros em quatro grandes tipos: bikers (uso da moto como meio de vida, e.g. Hells Angels), riders (uso da moto por lazer), motoboys (uso da moto no trabalho) e commuters (uso da moto para ir e voltar do trabalho). Notem que uma mesma pessoa pode desempenhar várias dessas funções: ir ao trabalho de moto (commuter), trabalhar com a moto (motoboy) e depois passear no final de semana (rider).

Agora, por que eu caí na besteira de fazer essa classificação grosseira que só me trará críticas? É que eu queria explicar que há bastante material sobre bikers, riders e motoboys por aí. Mas é muito difícil encontrar qualquer discussão sobre o uso das motos exclusivamente para transporte, os commuters. Daí aparece o terceiro livro que eu queria comentar, 100 Years of Motorcycles. Esse livro é uma coletânea de fotos da agência de notícias Press Association. Tem a limitação de serem fotos quase que exclusivamente da Inglaterra. Por outro lado, englobam 100 anos de história e mostram uma visão de pessoas (fotojornalistas) de fora do mundo do motociclismo. Bem, eu tenho a péssima e completamente distorcida mania de dar mais importância para textos escritos do que para outras formas de comunicação. Acho as fotos bonitinhas, mas que não passam de ilustrações para o imperador da página: o texto. Eu não poderia estar mais errado. Uma das fotos desse livro mostra o lado de fora do Estádio de Wembley, lá pelos anos 50. O que se vê é um mar de motos estacionadas, quase todas com sidecars. Ao ver essa foto, eu consegui entender o que os textos vivem tentando inutilmente me transmitir: que as motos já foram muito comuns na Europa para pessoas que ainda não podiam comprar carros. Principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, antes que os países tivessem se reerguido. Isso pode ser passado por lá, mas é o presente aqui no Brasil.

Ao ter acesso a todo esse material, comecei a entender que não basta saber como uma moto funciona. É muito importante levar em conta outros pontos de vista, como a história, a cultura, a psicologia e a economia. Um exemplo bem claro disso são os carros elétricos. Às vezes a gente acha que são coisas modernas, uma grande idéia que alguém teve há poucos anos e que só não vai para frente porque há uma grande conspiração da indústria do petróleo. Na verdade, no início do século XX havia mais transporte elétrico do que com motores de combustão. O transporte elétrico caiu em desuso porque é muito mais fácil armazenar energia na forma de gasolina do que na forma de baterias, que são muito pesadas. Para entender uma questão desse tipo, é preciso usar vários pontos de vista (evolução tecnológica das baterias, concentração de pesquisa na área de motores de combustão interna, desconhecimento do impacto ambiental da queima de combustíveis fósseis etc.).

BSA 1957, por Terence John Cleary

Essa ampliação dos meus estudos sobre as motos ocorreu durante o segundo semestre de 2010. Da mesma forma que tinha acontecido com parte tecnológica, eu demorei a me dar o direito de incluir essas questões mais gerais nas minhas atividades de pesquisa. Eu pensava: pode até estar certo um engenheiro mecânico estudar questões tecnológicas, mas não está certo o estudo de história, cultura e economia.

Estava tudo combinado para ministramos mais uma vez a disciplina de graduação Engenharia da Motocicleta no início de 2011, mas houve algum problema no sistema de registro e a disciplina não foi oferecida. Também aconteceu de nenhum aluno se matricular em uma disciplina eletiva que eu tinha oferecido. Quando eu vi, eu tinha ficado com uma carga horária menor do que o mínimo que eu tenho que ministrar na universidade. Continuando as coincidências, a administração da universidade permitiu que nós oferecêssemos, fora do prazo, novas disciplinas na pós-graduação. Lá estava eu, precisando oferecer uma nova disciplina e com a oportunidade de fazer isso fora do prazo. Eu poderia ter oferecido algo parecido com Engenharia da Motocicleta, que é uma disciplina tecnológica, mas as minhas energias estavam em outro lugar. Eu havia dedicado boa parte das minhas horas vagas para estudar esses outros aspectos das motos. Resolvi tentar. Submeti a disciplina Estudos da Motocicleta, que foi aprovada e implementada sem maiores restrições. Legal.

A disciplina é dividida em três grandes partes:

  • Estudos gerais; que incluem a história das motos, descrição tecnológica e grande revisão bibliográfica.
  • Estudos tecnológicos; com simulação de motores, ciclística e maior detalhamento dos sistemas. Essa parte é bem parecida com a disciplina da graduação Engenharia da Motocicleta.
  • Estudos culturais, produção industrial, legislação e comércio; com os filmes e os livros de ficção que forjam a imagem dos motoqueiros, com a produção industrial das fábricas japonesas e chinesas, a legislação para novos projetos e as formas de marketing usadas na comercialização das motos.

O curso é bastante amplo. Para focar um pouco as aulas, resolvemos dedicá-lo a discutir as seguintes questões:

  • Por que alguém anda de moto? Será que é porque vivem uma ilusão de independência vendida nos filmes? Ou então é só porque são baratas, sendo substituídas por carros assim que o salário aumentar um pouco? Ou o seu uso é inevitável por causa do trânsito das grandes cidades? Ou temos um prazer psico-fisio-filosófico irresistível por voarmos bem perto do chão?

  • De que forma se dará a entrada das motos elétricas no mercado mundial? Parece inevitável que são o futuro. Mas, quando vai acontecer isso? De que forma?

  • Qual o papel das motos chinesas no Brasil? A suposta baixa qualidade das motos chinesas é realidade ou propaganda das grandes fabricantes japonesas? Mesmo que eventualmente tenham baixa qualidade, isso é apenas o presente ou será assim para todo o sempre? Quando as japonesas começaram a invadir o mercado mundial, a partir dos anos 50, havia a mesma desconfiança. Será que é isso que está acontecendo agora?

  • O Brasil tem condições de entrar seriamente na fabricação de motos elétricas? As motos elétricas são muito mais simples do que as que usam motores de combustão interna. É uma grande oportunidade para que pequenas empresas inovadoras entrem no mercado. Quase sempre que aparece uma nova tecnologia, aparecem muitas fábricas novas. Isso aconteceu nas primeiras décadas da motocicleta como conhecemos hoje em dia. Até que a nova tecnologia das elétricas se consolide, teremos um momento de abertura para quem tiver coragem. Mas isso depende de financiamento, pesquisa, organização, legislação e cultura.

As aulas de Estudos da Motocicleta começaram apenas ontem. A minha expectativa é de que será mais um grande passo para compreendermos esse mundo das motos e, mais importante, participarmos do que vem pela frente. Vamos ver.