#125 A Arte da Motocicleta

A Arte das Motos

Em 1998, foi feita uma exposição que usava as motos para representar as principais mudanças culturais que ocorreram no século XX. Para os organizadores, as motos são mais do que um simples modo de transporte ou de declaração de um estilo. Para eles, as motos podem representar dos mais sublimes momentos, como a luta pela igualdade das mulheres, aos mais sombrios, como o totalitarismo nazista.

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Quando eu e minha mulher somos obrigados a ir ao shopping, ela vai fazer o que precisa ser feito enquanto eu fico enterrado em alguma livraria. Em geral, eles não têm muitos livros de moto. Mas, quando tenho sorte, chego a encontrar uma meia dúzia, daqueles cheios de figuras. São livros caros e muito manuseados. Como esses livros não têm muita saída por aqui, não é incomum que eu veja e reveja o mesmo livro muitas vezes. Um deles, com quem passei um bom tempo paquerando, é “The Art of the Motorcycle” (A Arte da Motocicleta). Eu só olhava as fotos. Nunca tive a curiosidade de ler os textos, achando que devia ser mais do mesmo. Um dia ainda compraria aquele livro bonito, mas não tinha pressa. Foto por foto, eu podia ver na internet.

Até que comecei a me interessar um pouco sobre as motos como expressão cultural. Isto é, como aqueles artefatos industriais podem representar o que pensamos, acreditamos e fazemos. Nessa busca, encontrei vários textos que falavam exatamente daquele livro que eu sempre via na livraria. Então, afinal, não era um livro só de fotos. Tinha mais coisa por ali. Na realidade, era um livro envolvido em polêmicas. Oba!

O livro foi produzido para acompanhar uma exposição no museu Guggenheim, Nova Iorque, em 1998. Os responsáveis no museu escolheram as motos como expressão das mudanças culturais que ocorreram durante o século XX. A polêmica vinha de dois lados. Primeiro, quem trabalha com arte não considera uma moto como uma obra artística. Não porque não seja bonita, mas para eles uma obra de arte não pode sair de uma linha de produção. Se pudesse, todas as cópias da Monalisa, por exemplo, seriam obras de arte. Segundo, quem anda de moto também tem críticas à exposição, porque as motos foram mostradas como esculturas: sem velocidade, sem som e sem piloto. A essência da moto, que é o movimento, não havia sido representada. Seja quem for o crítico, museu de arte não é lugar para motos.

Concordo com essas críticas feitas à exposição. Mas o que me interessava era o livro. Esse sim capturava a essência das motos.

No começo do livro, são apresentados oito textos de vários autores. Aparentemente falam do comum, como a história das motos ou sua aparição nos filmes. Mas há muito mais. Aqueles escritores também discutem livremente sobre a paixão pelo risco e pela velocidade, a questão de usar ou não um capacete, o simbolismo de andar no corredor do trânsito, como o mundo dos que andam de moto é machista e o namoro dos jovens com a morte. Esses não são assuntos comuns nas grandes publicações de hoje em dia, pois já faz um bom tempo que a preocupação com as vendas e com a segurança praticamente baniu esse tipo de discussão. No entanto, são assuntos que permeiam as conversas entre amigos e que passam pela cabeça de todos que andam de moto. Legal ver essas idéias discutidas abertamente.

Espalhados pelo livro, há vários resumos de época, que explicam como as motos representam o momento cultural de cada período. Por exemplo, entre 1870 e 1914, o homem moderno estava fascinado com o movimento, com as máquinas e com a possibilidade de construir o seu próprio destino. Parecia que tudo era possível. As motos eram fruto daquele pensamento de invencibilidade e ausência de limites. Em 1907, foi criado o “Isle of Man TT”, talvez a mais perigosa de todas as corridas de moto. No mesmo ano, Glenn Hammond Curtiss fabricou uma V-8 que atingia 219 km/h. Já nos anos 20, começaram a aparecer algumas motos feitas também para mulheres, o que expressava a grande liberação vivida naquela década. Nos anos 30, as motos passaram a ter um design mais simples, utilitário, representando os movimentos totalitários que nasciam naqueles tempos. Nos anos 60, as motos eram o símbolo da contracultura. Os anos 80 são chamados de “anos dos consumidores”, quando as motos se transformaram em símbolo de status. Por fim, os anos 90 foram marcados pelo fortalecimento dos nichos: motos retrô, motos esportivas, motos de aventura e outras.

Todos esses artigos são legais, mas a parte principal do livro fala especialmente das motos, com a descrição de 95 modelos, escolhidos a dedo. Como exemplos, a primeira moto produzida em escala (Hildebrand & Wolfmüller, 1894), designs diferentes para expandir o interesse pelas motos (Megola Sport, 1922), times vencedores do MotoGP (MV Agusta 500 Grand Prix, 1956), charme (Vespa GS, 1962), motos que viriam a influenciar as décadas futuras (Honda CB750 Four, 1970) e a coragem de trazer de volta um design voltado à essência (Ducati M900 “Monster”, 1993).

Depois que aprendi que esse livro não era só mais um livro de fotos, voltei correndo à livraria. Nunca ninguém tinha se interessado por ele, então ainda estaria por lá. Que nada. Sumiu da prateleira. Eles não sabiam explicar o que tinha acontecido. Como é um livro antigo, tive que começar a procurar nos sebos da internet. Mas mesmo sendo usado, é caro. Se for enviado para o Brasil, não sai por menos de 100 dólares. Tem gente que vende esse livro até por 1500 dólares. Depois de uma longa procura, no meio de 2010, achei uma cópia por 70 dólares, incluindo o frete absurdo de 43 dólares. Esse preço é alto por causa do peso – mais de 3 kg. Não é um livro para ler na rede ou na fila da padaria.

Valeu a pena esperar. Eu nunca tinha pensado em como as motos podem representar o que vem acontecendo no nosso mundo: a época antes da Primeira Guerra Mundial em que os homens tinham a esperança de que as máquinas iriam resolver tudo, os momentos de totalitarismo antes da Segunda Guerra Mundial, o consumismo depois dos anos 80, o protesto dos anos 60, a efervescência cultural dos anos 20. Além dessas rápidas mudanças, o livro também é permeado de traços humanos eternos, como a necessidade da velocidade, da liberdade, da individualidade e de experimentar o novo. Em seus textos, distingue necessidades reais daquelas criadas pelo marketing, distingue autenticidade de estilo, distingue o amor pelo movimento da pilotagem destrutiva. Essas discussões são feitas sem medo de parecer apologia ao suicídio. Esse livro não é para lermos sobre o que já sabemos, mas sim para termos acesso a outros pontos de vista. Também não é para defender a pilotagem perigosa ou alguma revolução cultural contra o consumismo. A proposta do livro é trazer alguma luz, não esconder problemas debaixo do tapete. Este livro é um bom lugar para começar a pensar de uma forma um pouco diferente sobre as motos. Só para começar.

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Referência:

“The Art of the Motorcycle”, Solomon R. Guggenheim Museum, 1998.

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Comentário do BLOG

A minha coluna este mês na Revista Moto Adventure é sobre o livro The Art of Motorcycle, produzido pelo pessoal do Museu Guggenheim para acompanhar uma exposição em 1998. Os caras usaram as motos para representar as mudanças culturais do século XX. Deu briga para caramba, pois quase todo mundo concorda que museu não é lugar de moto. Mas o livro é muito legal, pois tem um monte de histórias – tanto culturais quanto tecnológicas -, fotos bonitas e artigos corajosos. A pesquisa foi muito bem feita. A única dificuldade em ler o livro é que ele pesa 3 kg.

Revista Moto Adventure #125

Bastidores

Este mês não sobrou muito para contar sobre os bastidores, pois aproveitei uma parte da coluna para falar como foi o meu primeiro contato com o livro, os meus pré-conceitos por ser um livro de museu e depois a dificuldade em conseguir comprar uma cópia. Essa foi uma longa história, porque depois que eu vi que precisava comprar o livro, fiquei mais de um ano esperando aparecer uma cópia usada que pudesse ser enviada ao Brasil por um preço razoável. Para vocês terem uma idéia, hoje o exemplar mais barato da Amazon sai por R$ 700,00. Agora, se você puder mandar entregar nos EUA, então tem um exemplar que está sendo vendido por R$ 100,00. Vale a pena. O livro está no meu Top 10.

Já que não tem muito para contar sobre os bastidores, deixa eu falar um pouco sobre o processo editorial. Bem, eu só estou acostumado a mandar textos para revistas acadêmicas e congressos científicos, que têm um processo completamente diferente do usado pelas revistas de banca. Por um lado as regras das revistas científicas são extremamente rígidas, o que é chato. Por outro lado, o editor não muda nem uma vírgula sem perguntar para o autor se aquilo não vai alterar o sentido do que estava querendo dizer, o que é legal pois o autor mantém o controle sobre o resultado. Todas as figuras são de responsabilidade do autor. Você sabe exatamente em que mês o seu artigo vai ser publicado. Eles podem até não gostar do que você mandou, mas mesmo assim não mudam nada, simplesmente recusam ou sugerem que você mude alguma coisa.

Nas revistas de banca as coisas são de outro jeito. Eu nunca sei se vai haver alguma mudança no texto ou que figura vai ilustrar a página. No começo fiquei incomodado com essa falta de controle sobre o artigo final. Mas depois de um tempo eu comecei a achar bem legal, pois fico ansioso esperando a revista chegar em casa. Sempre tem sido uma surpresa, uma boa surpresa. Bem, talvez se o processo editorial não estivesse melhorando o que eu mando, então eu ficaria triste. Mas como o produto final está melhor que a minha remessa, então não vou mais reclamar.

Sobre as pequenas mudanças no texto, confesso que me causaram um certo estranhamento nas primeiras vezes que recebi a revista em casa. Ainda mais quando li o livro On Writing Well, de William Zinsser, que diz que um autor de verdade jamais deve permitir que um texto seu seja modificado pelo editor. Mas depois descobri que esse é um dos únicos autores que defende isso. Com o tempo fui lendo outros livros, como Handbook of Magazine Article Writing, da Writer’s Digest; The Journalist’s Craft, de Dennis Jackson e John Sweeney; e The ASJA Guide to Freelance Writing, de Timothy Harper e Samuel G. Freedman. Esses livros são mais pé-no-chão, escritos para pobres mortais como eu. Eles explicam como é o processo editorial, a necessidade de adequar o texto para ficar no estilo da revista, a limitação de espaço e, principalmente, que o editor está ali para ajudar: corrigir as burradas do autor, acertando a gramática, tornando as idéias mais claras e o texto mais atraente. Por exemplo, eu não sabia que era preciso um lead no início do texto para prender a atenção do leitor. O livro da Writer’s Digest tem até uma seção chamada: “não seja um escritor problema”, que explica cinco formas pelas quais um escritor pode atrapalhar o trabalho de um editor. Eu já usei as cinco, mesmo antes de ler o livro. Acho que tenho um talento nato para ser problema.