Movimento Cultural dos Motoqueiros

A música que eu ouvia nos anos 80

Agora há pouco eu estava lendo a discussão em um grupo da internet que eu faço parte (M@D). Lá eram misturadas duas conversas: música dos anos 80 e motos. Resolvi escrever este texto para dar a minha visão sobre isso.

Eu fui adolescente nos anos 80. Isso significa que meu cabelo era mullet, usava ombreiras, jogava Atari e fazia minhas próprias animações no TK2000. Um pouco mais para o final da década nós vivemos a melhor época dos quadrinhos: Cavaleiro das Trevas, Electra Vive, A Queda de Murdock, Akira, Watchmen… eu tinha todas as graphic novels que foram lançadas. Morava em Florianópolis e vivia na banca da Rua Tiradentes.

Naquela década, por causa de alguma condição de mercado (Plano Cruzado?), qualquer banda podia lançar o seu disco. Até banda boa tinha chance! Não é como hoje em dia em que só as bandas populares conseguem algum espaço. Eu gostava de rock nacional: IRA!, Picassos Falsos, Mercenárias, Titãs, Replicantes, Camisa de Vênus, Plebe Rude, Barão Vermelho, Inocentes e um monte mais. Eu também gostava de algumas bandas que seriam consideradas “emo” hoje em dia: Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana e Violeta de Outono. Não tinha quase nenhum disco. Tudo em fita cassete que pegava emprestado.

Eu tinha raiva de umas bandas que apareciam na TV. Como o RPM, Magazine, Dr Silvana & Cia e Ultraje a Rigor. Elas estavam “traindo o movimento punk”, “traindo o movimento beatnik” ou qualquer outro movimento que me viesse à cabeça.

Só depois de velho é que consegui entender a inteligência e a importância de várias músicas do Ultraje a Rigor. A sátira política em “Inútil”, a crítica de costumes em “Independente Futebol Clube” e a ironia à indústria do entretenimento em “Mim Quer Tocar”. Eu não conseguia entender que era possível falar de coisas sérias através do humor.

Havia uma banda chamada Magazine, que vinha com letra e música bem simples. Fazia muito sucesso na TV. Eu achava aquilo um grande embuste. Uma das músicas mais famosas era “Eu Sou Boy”. Eu detestava. Achava ridículo. Mas, da mesma forma que aconteceu com a minha visão sobre o Ultraje, depois eu percebi que essa música dava voz, identidade e cara para um grupo desprezado: os office boys.

A Imagem dos Motoqueiros

Primeiro, para quem não acompanha os meus textos, quero deixar claro que eu considero “motoqueiro” todos que se relacionam com as motos: quem só passeia no final de semana, motoboys, mecânicos, mototáxis, quem usa só para ir ao trabalho, quem tem uma moto só até ter dinheiro para comprar um carro, quem tem moto porque adora pilotar. Andou de moto, é motoqueiro.

Segundo, esse slogan que eu defendo para o motoqueirismo, que “viver é bom e viver é arriscado”, não significa que devemos arriscar as nossas vidas sem propósito. A idéia é aceitar que a vida é arriscada, cheia de imprevistos. Exatamente como um passeio de moto. Andar de moto representa que aceitamos os riscos da vida, não que criamos riscos desnecessários. Talvez seja algo meio budista, mas não entendo nada disso.

Acho que Melissa Holbrook Pierson (autora do livro “The Perfect Vehicle: What It Is About Motorcycles”) consegue explicar isso bem melhor, quando compara os motoqueiros aos escaladores experientes, citando Yi-fu Tan: ” (…) abominam o perigo, ao mesmo tempo que abraçam o risco; porque o risco apresenta dificuldades que podem ser estimadas e controladas. (…)”

Voltando ao que eu queria falar, os principais movimentos culturais de motoqueiros foram os “Bikers” (América, anos 40/50/60), “Riders” (América, anos 60/70), “Mods & Rockers” (Inglaterra, anos 60) e “Bōsōzokus” (Japão, anos 70/80). Um outro movimento importante, mas sem nome, é aquele formado pelos pioneiros. Aqueles que pilotavam as motos nas primeiras décadas do século XX. Tinham que ser grandes mecânicos e viviam sujos de graxa. Gostavam principalmente das máquinas e da conquista da velocidade.

O número de Bikers, Riders, Mods, Rockers e Bōsōzokus é totalmente insignificante em relação ao número de pessoas que anda de moto. Só que a cultura deles é extremamente importante. Isso porque a imagem que os motoqueiros têm de si mesmos ainda vem deles. Isso acontece por causa dos filmes e das revistas especializadas, que insistem em mostrar o motoqueiro com alguma daquelas imagens do passado.

Bem, para não dizer que é só isso, tem também uma outra imagem: o motoqueiro bandido. Essa é a imagem vendida pelos jornais. A diferença em relação às outras é que não é incorporada pelos próprios motoqueiros. Serve apenas para discriminar quem anda de moto, como se fossem a causa de todos os males. Mas mesmo assim essa imagem não é tão nova assim, pois os bikers também são vistos do mesmo jeito. Nos anos 40 pós-guerra, muitos deles trabalhavam como entregadores, exatamente como os motoboys de hoje.

O problema é que os motoqueiros de hoje não conseguiram ainda criar sua própria cultura. Ficam tentando imitar essas culturas antigas. Mas não dá para copiar uma cultura, só uma imagem. Uma imagem não tem a força para criar um movimento que afirme as suas crenças (viver é bom e viver é arriscado) e não consegue se contrapor à estampa de bandido imposta pelos jornais.

A principal função dos jornais e revistas é trazer a verdade. Mas não é qualquer verdade, como “o gato subiu na árvore”. Isso é um fato, claro. Mas se um jornal escreve isso na manchete no mesmo dia em que um ministro foi condenado por corrupção, então esse fato (real) está escondendo a verdade. A imprensa deve trazer assuntos significantes para as pessoas e apresentá-los de forma balanceada. A partir dessa verdade é que as pessoas podem fazer os seus julgamentos. Não é papel da imprensa fazer o julgamento, apenas tentar transmitir a verdade da melhor maneira possível. Outra função da imprensa é criar um senso de comunidade nas pessoas. Os jornais – que mostram motoqueiros só em crimes e acidentes – e as revistas – que só mostram produtos para consumo de motoqueiros – não estão conseguindo criar esse senso de comunidade, não estão conseguindo trazer a verdade de forma significante e balanceada. Não estão conseguindo repercutir a vida dos motoqueiros de uma forma plena.

Estamos dependendo apenas deles – jornais, revistas e filmes americanos – para criar a nossa cultura. Deixam muito a desejar. Não somos apenas criminosos, consumidores ou gente que vive no passado. Somos pessoas que decidiram viver de uma forma que espelha o próprio risco da vida. Isso não significa ser irresponsável. Isso significa aceitar que viver é bom e que viver é arriscado.

Um exemplo bem claro dos efeitos da falta de uma cultura nossa é como os acidentes de trânsito são vistos. Um motoqueiro jogar a moto sobre o carro é um ato de vandalismo. Um motorista jogar o carro sobre uma moto é uma tentativa de homicídio. São dois atos completamente diferentes. Eu acho impressionante que as pessoas não consigam ver isso desse jeito. É preciso uma nova cultura para que esse tipo de miopia fique evidente.

É legal imitar os bikers e os riders dos filmes, mas isso está impedindo a construção de algo novo. Precisamos de uma nova cultura dos motoqueiros. O Brasil tem uma condição completamente diferente da maioria dos outros países. Na América e na Europa, quase todos motoqueiros têm moto para lazer. Na maior parte dos países em desenvolvimento, quase todos têm motos para trabalhar. Aqui no Brasil, para variar, temos a mistura.

Movimento cultural dos motoqueiros

Já existe alguma produção cultural além do feito pelos jornais e revistas. Por exemplo, os encontros, corridas, várias tribos (trilheiros, sporters, harleyros) e grupos da internet. Só acho que precisamos aumentar isso (sempre mantendo a diversidade). Para mim, o único meio que funciona – ainda assim mais ou menos – são os grupos da internet, com a diversidade e a criação de uma mitologia própria. Só não tenho certeza se os motoboys e quem anda de moto a trabalho têm uma participação proporcional na internet.

O que eu chamo de movimento cultural é algo que vai além das tribos. Englobando, ao mesmo tempo que critica, a todas. Eu acredito que existem dois pontos comuns em quem anda de moto: a) do ponto de vista evolutivo, temos prazer com a aceleração, a velocidade, o som do motor, o nível de concentração e a posição de pilotagem; b) do ponto de vista cultural, defendemos a mensagem de que a vida é arriscada, ajudando a oxigenar a sociedade que tem a tendência de ter medo de tudo. O resto é completamente diferente: tem gente conservadora que se veste como rebelde (desrespeitando as mulheres, por exemplo), tem gente que tenta se matar em cima de uma moto (isso deveria ser levado mais a sério, pois a nossa sociedade está criando isso), tem gente que precisa se afirmar em grupos, fortalecendo o ego em vez de fortalecer a sua autenticidade, tem gente que faz trilha na lama, tem gente que só anda no final de semana, tem gente que anda de moto para trabalhar, tem gente que faz acrobacias.

Como exemplo do que eu chamo de produção cultural, tem um documentário legal feito nos EUA em 1971 que mostra vários tipos de motoqueiros, do domingueiro ao profissional: “On Any Sunday”. Parece até comédia no começo, pois mostra um cara bem gordo em uma minimoto; mas depois vêm crianças, quem está aprendendo, flat track, quem trabalha, corridas, trilhas, passeios no domingo… As roupas e bigodes da época são esquisitos, mas as cenas de moto são bem legais. O documentário só não representa os bikers e os riders, mas acho que é porque naquela época o que não faltavam eram filmes sobre esses outros caras. O documentário é coisa de americano, não tem o que a gente tem aqui. É só um exemplo. Mas eu penso que consegue mostrar alguma diversidade de estilos ao mesmo tempo que revela a essência do motoqueirismo.

Já pensou se a gente conseguisse fazer coisas assim por aqui? Documentários com grandes misturebas dos motoencontros, motoboys, caras tocando a boiada no norte, jovens de CG indo para a praia no domingo de manhã, caras de meia-idade fazendo viagens nas férias, pessoal das trilhas… Cada um falando coisas completamente diferentes, se vestindo dos mais variados jeitos, mas todos mostrando o que é a essência de andar de moto: gostar da pilotagem e espalhar a imagem de que vale a pena correr riscos. Isso sem contar filmes, livros, páginas na internet, músicas…

Enquanto escrevo este texto, tenho em minha prateleira uns 150 livros sobre motos. Tem coisa lá de filosofia da moto, religião da moto, engenharia da moto, viagens com moto, ficção com moto, cultura da moto… mas quase tudo em inglês. Isso sem contar todos os filmes americanos e europeus que rodam por aí. Eles falam de um mundo que não é o nosso. Quando eu proponho aumentarmos a nossa produção cultural, é ter uma coisa assim, com a nossa cara. Uma cultura ao nosso serviço. Eu fico puto de não poder saber mais sobre o motoqueiro de São Paulo, o motoqueiro do Piauí, o motoqueiro de Porto Alegre. Queria saber sobre os pioneiros no Brasil, como eram as corridas nos anos 60, como as motos eram usadas pelo transporte. Ainda bem que tem os nossos fóruns. Mas seria melhor termos mais: livros, filmes, jogos, músicas e tudo o mais.

Ser motoqueiro não é ter um estilo. Ser motoqueiro é andar de moto. É uma experiência sensorial única. É uma experiência existencial. Isso têm implicações culturais, filosóficas, físicas, psicológicas, religiosas e sociais. Essa experiência muda o motoqueiro e muda quem o vê. Mas esse efeito que a moto tem sobre todos não depende só da experiência, depende da cultura onde essa experiência se inclui. Essa é a única forma que temos de entender a experiência. No final das contas, a experiência condiciona a cultura e a cultura condiciona a experiência. O problema é que não estamos deixando que a nossa experiência condicione essa nossa cultura. Assim, não conseguimos explorar tudo o que poderíamos com essa experiência de andar de moto.

Há um livro sobre motoqueiros (Bikers: Culture, Politics and Power) em que a autora fala de três agentes: Movimentos Sociais, Partidos Políticos e Grupos de Pressão. Acho que o que eu defendo aqui é o fortalecimento, através da efervescência cultural, de um movimento social. Parece que organizações, associações e sindicatos fazem parte do que ela chama de grupos de pressão. Mas, o que importa é que ela diz que esses três agentes (Movimentos Sociais, Partidos Políticos e Grupos de Pressão) são importantes e devem ser utilizados simultaneamente.

Esse movimento cultural que eu falo aqui neste texto é algo que afirma o que temos de comum (velocidade e imagem do risco), promove a diversidade (cada um com sua opinião, moda e música) e que tem a coragem de combater o que está errado (preconceito e ignorância).

Produção cultural vai além da produção artística. A cultura engloba a arte. O fato de escrever um texto em um grupo de discussão já é uma produção cultural. Da mesma forma que viajar de moto também é. Andar de moto, além de uma experiência existencial, também é uma manifestação cultural. Novas fábricas de moto são manifestações culturais. Mudar o nosso hábito de consumo também.

Na minha pobre visão, seria muito legal colocar um pouco de fermento no movimento cultural dos motoqueiros. Nada formal ou estruturado, só todo mundo contribuindo do seu jeito. Multiplicando o que já temos de nosso por aqui. Colocar para ferver, tascar pimenta. Com músicas, livros, filmes, documentários, congressos, páginas na internet, teorias, linguagem própria, teatro, novas fábricas, um novo jeito de consumir, fotografia, artes plásticas, poesia, mitologia, respeito irrestrito às mulheres, diversidade de pensamentos, inclusão total de todas as minorias, lendas urbanas, símbolos, psicologia do piloto, religião, preparação física, filosofia, estudos culturais, moda, fóruns de discussão, estilo de vida, defensores na mídia, representantes políticos, produtores culturais, revistas e festivais. Sem diferenciar motoqueiros, motoboys, motociclistas e profissionais da moto. Cada um falando o que quiser, sendo do jeito que quiser, mas sempre em cima de uma moto.

Às vezes uma única música pode fazer a diferença. Acho que chegou a hora de aparecer um outro Kid Vinil com a coragem de gritar “Eu Sou Motoqueiro”.

No mais, eu ainda não gosto de RPM e Dr Silvana & Cia.