#126a Heróis da Velocidade

Os Heróis Americanos

Nas corridas de moto, os projetistas sempre buscam o equilíbrio entre a aceleração, a aderência e a capacidade de fazer curvas. Em certas épocas, eles conseguem essas motos equilibradas. Só que isso não acontece quando algum dos componentes da moto tem um avanço tecnológico mais rápido do que os outros. Nessas épocas, quando esse equilíbrio não é alcançado, é preciso de um piloto especial para domar a moto. Por exemplo, esse desequilíbrio aconteceu em meados da década de 70, quando os motores dois tempos começaram a dominar o campeonato mundial de motociclismo de 500cc, o Grand Prix. Foi o início de uma era em que a harmonia foi quebrada. Os motores dois tempos eram mais potentes do que podiam agüentar os pneus, a suspensão e os quadros. A aceleração era tão brusca que os pilotos quase não podiam controlar as suas motos. Eram tempos difíceis. Mas não para todos. Entre 1978 e 1993, pilotos vindos dos EUA ganharam 13 dos 16 campeonatos disputados. Foi a era dos heróis americanos. Por que os americanos pilotavam melhor aquelas motos do que os pilotos europeus? Bem, essa é uma história que começa no início do século XX.

Desde que as motocicletas começaram a ser produzidas em série, não demorou muito para que os homens percebessem que elas também serviam para competições. No início, as corridas eram mais ou menos parecidas na Europa e nos EUA, muitas delas sendo realizadas em pequenas pistas fechadas. Só que, com o aumento da potência das motos, o número de acidentes começou a preocupar. Era preciso encontrar um novo lugar para correr. Nesse momento, começou a haver uma diferença marcante entre o motociclismo praticado na Europa e nos EUA. A Europa, que já tinha muitas estradas asfaltadas, começou a ter mais corridas em pistas de rua, ou em pistas pavimentadas construídas especialmente para as corridas. Os EUA, que eram um país mais rural na época, começaram a fazer as suas corridas nos campos e em pistas de cavalo.

As competições ocorreram desde o início do século, mas só depois da Segunda Guerra Mundial que os principais campeonatos tiveram início. Em 1949, foi criado o Grande Prêmio de Motociclismo (Road Racing World Championship Grand Prix, ou, simplesmente, Grand Prix). Teoricamente deveria ser um campeonato mundial, mas na prática era uma competição européia. As corridas eram realizadas exclusivamente em pistas asfaltadas. Do outro lado do Atlântico, em 1954, os EUA criaram o Grand National, um campeonato onde o piloto precisava mostrar a sua capacidade em cinco tipos diferentes de pistas: dirt track (pistas “sujas” ovais; nas modalidades de uma milha, meia milha e quarto de milha), TT (ou Tourist Trophy; pistas “sujas” com pelo menos uma curva à direita e um salto) e corridas no asfalto. Eram dois mundos completamente diferentes. Enquanto os pilotos da Europa, no Grand Prix, tinham motos avançadas construídas especialmente para corridas, os pilotos americanos usavam motos de série no Grand National. Enquanto os europeus refinavam quase à perfeição a pilotagem limpa, os americanos se digladiavam nas pistas, usando os cotovelos nas curvas para disputar posições e controlando as suas motos em péssimas condições de aderência.

Nas primeiras décadas do Grand Prix, entre 49 e 74, as motos italianas de quatro tempos (MV Agusta e Gilera) foram quase supremas na categoria de 500cc, ganhando 24 dos 26 campeonatos disputados. Mas uma grande mudança veio gradativamente das categorias de baixo. Em 1962 uma moto dois tempos ganhou o campeonato de 50cc. Em 1963, o de 125cc. Em 1964, o de 250cc. Em 1974, o de 350cc. Em 1971, uma Suzuki ganhou a primeira corrida de 500cc com um motor dois tempos. Era apenas uma questão de tempo até que uma Yamaha, em 1975, ganhasse o primeiro campeonato de Grand Prix com esses motores na categoria 500cc. Dali em diante, todos os campeonatos seriam vencidos por motores dois tempos, até que fossem banidos em 2002.

Os motores dois tempos eram potentes, mas a sua faixa de operação era muito estreita. Isso quer dizer que desenvolviam potência em apenas uma determinada faixa de rotação. Além disso, os pneus, as suspensões, os freios e os quadros não tinham acompanhado a evolução dos motores. O resultado eram motos que mais pareciam mísseis voando em linha reta. Para manter a potência, os pilotos tinham que fazer as curvas com as rodas patinando, com a moto saindo de lado. As motos empinavam na retomada de velocidade. O negócio era acelerar nas retas sem perder a aderência, fazer as curvas o mais rápido possível e acelerar novamente. Isso fazia com que, nas curvas, várias motos se encontrassem, tentando ocupar o mesmo espaço. Que confusão! Os pilotos europeus – que tinham chegado quase à perfeição para fazer as curvas em suas motos quatro tempos -, não conseguiam lidar muito bem com essa desordem nas pistas, com esses trancos do motor, com a falta de aderência nas curvas.

Por coincidência, ou não, em 1971 inventaram umas corridas promocionais em que um time americano enfrentava um time inglês em várias pistas: Transatlantic Match Races. Começou apenas com motos BSA/Triumph, mas nos anos posteriores outras fabricantes foram aceitas. Essas competições permitiram que os pilotos americanos – que faziam grande sucesso nos EUA, mas que eram completos desconhecidos na Europa -, descobrissem que podiam fazer carreira naquelas terras. O estilo guerreiro, desenvolvido nas pistas sem aderência das dirt tracks do Grand National, era perfeito para aquela época de motores dois tempos vivida no Grand Prix.

Os pioneiros foram Steve Baker e Pat Hennen, que venceu a primeira corrida de um americano nas 500cc em 1976. Mas tempos melhores viriam quando Kenny Roberts, King Kenny, tomou três campeonatos consecutivos em 78, 79 e 80. Como se não bastasse, Kenny Roberts depois seria dono de equipe campeã e pai de um campeão, Kenny Roberts Jr. Começava então o reinado dos americanos: Freddie Spencer venceu em 83 e 85; Eddie Lawson em 84, 86, 88 e 89; Wayney Rainey em 90, 91 e 92; e Kevin Schwantz em 93. Foram 13 campeonatos americanos em 16 disputados.

Com a chegada forte do Motocross nos EUA, a partir dos anos 80, o Grand National diminuiu bastante sua importância. Os pilotos americanos começaram a se especializar em categorias distintas – ou Motocross, ou Superbike, ou Trial -, não sendo mais polivalentes com antes. Outro fator importante foi o acidente de Wayney Rainey, em 93, que abalou seriamente os outros pilotos, principalmente Kevin Schwantz. Depois veio o motor do tipo Big Bang, que permitia maior aderência, tornando a moto bem mais fácil de pilotar. O australiano Mick Doohan, que também tinha formação em dirt track, agora sem grandes pilotos na concorrência, ganhou cinco títulos consecutivos entre 94 e 99. A pá de cal foi jogada em 2002, com a mudança nas regras que praticamente baniu os motores dois tempos. Depois disso, o estilo de pilotagem voltou a ser aquele de perfeição nas curvas, sem grandes embates. As corridas deixaram de parecer com um bando de cowboys loucos tentando domar cavalos bravos e voltou a parecer um balé. Há gosto para tudo.

Toda essa história está no livro “Grand Prix Motorcycle Racers – The American Heroes” (Pilotos do Grande Prêmio de Motociclismo – os Heróis Americanos). Ele conta a história de cada um desses pilotos, desde os primeiros tombos até chegarem à glória. Vem ainda com os americanos que venceram mais recentemente: Kenny Roberts Jr. e Nicky Hayden, e com os campeões na Superbike. Os grandes pilotos que não foram campeões também estão por lá, como o showman Randy Mamola.

Às vezes a gente tem a mania de achar que os americanos ganham tudo porque são mais ricos, têm melhores condições materiais e que compram o caminho do sucesso com dinheiro. Nada pode ser mais diferente dessa idéia do que a vida desses grandes campeões. Eles sofreram grande preconceito na Europa, onde eram encarados como pilotos bárbaros e sem sofisticação. Não venceram por serem deste ou daquele país, por terem grandes patrocinadores ou por terem feito as regras. Não. Venceram simplesmente porque tiveram uma boa escola e porque eram os melhores.

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Referência:

Norm DeWitt, “Grand Prix Motorcycle Racers – The American Heroes”, Editora Motorbooks, 2010.

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Comentário do BLOG

A Moto Adventure publicou dois textos meus neste mês de maio. O primeiro foi o “Heróis da Velocidade”, que conta porque os pilotos americanos ganharam 13 dos 16 títulos de Grand Prix (500cc) disputados entre 1978 e 1993.

As informações foram extraídas do livro “Grand Prix Motorcycle Racers: The American Heroes”, de Norm DeWitt. A tese básica é que naquela época os motores de dois tempos eram muito mais potentes do que os pneus e quadros podiam aguentar. Por isso as motos ficavam muito “bravas”, empinando na aceleração e derrapando nas curvas.

Os pilotos americanos estavam acostumados com isso porque sua principal competição era o “Flat Track”, ou “Dirt Track”, onde as motos correm em piso de terra. Os pilotos europeus, acostumados apenas com o asfalto perfeito das pistas, tinham dificuldade em controlar as novas motos.

De certa forma, esse texto complementa o Roubando Velocidade, onde falei da origem dos motores dois tempos no Grand Prix, lá na década de 60.

Revista Moto Adventure #126

Bastidores

O pessoal da Moto Adventure caprichou esse mês. Embora o texto seja mais ou menos do tamanho de sempre, com aproximadamente 1300 palavras, a publicação reservou nove páginas, com um monte de fotos que deram muita vida ao texto.

Por falar em texto, esse foi um dos que eu mais tive que estudar para escrever. Além do livro principal do DeWitt, eu ainda usei informações de:

  • “An Age of Superheroes”, de Mat Oxley, que foca apenas nos anos 88 a 93.
  • “The Motorcycle World Champions: The Inside Story of History’s Heroes”, de Michael Scott, que fala de todos os campeões desde 1949 até 2007.
  • “The Complete Book Of Flat Track Racing”, de Gerald Foster, que conta a idade de ouro do “Flat Track” americano na década de 70, exatamente a que formou os heróis americanos do Grand Prix.
  • “The Grand Prix Motorcycle: The Official Technical History”, de Kevin Cameron, que traz a história da evolução tecnológica das motos do GP desde 1949 até 2008. Ao contrário dos outros livros, que falam mais dos pilotos, esse aqui fala das máquinas.