#126b A Maior das Corridas

Isle of Man TT – A Maior Corrida de Todas

Era uma vez um menino de nove anos que ganhou uma enciclopédia ilustrada dos pais. Isso aconteceu há muito tempo, lá no meio da década de 60. Os volumes semanais mostravam como eram todas as coisas do mundo. Também havia alguns mapas, bem grosseiros, só com as principais cidades e alguns rios. Nesses mapas, cada região era ilustrada por uma figura. A Inglaterra era representada pela Tower Bridge, a famosa ponte de Londres sobre o rio Tâmisa. A Escócia vinha com um kilt, aqueles saiotes que os homens usam por lá. Enquanto o menino olhava o mapa do Reino Unido, seus olhos se prenderam em uma pequena ilha entre a Inglaterra e a Irlanda. Era tão insignificante que o texto que acompanhava o mapa nem ao menos a citava. Era uma tal de Isle of Man (Ilha de Man). O que chamou a atenção do menino foi a figura que escolheram para ela. Não era a tradicional menina camponesa com vestido rendado que os desenhistas geralmente escolhem para esses países bucólicos. O que representava aquela pequena ilha era uma moto de corrida. Aquela imagem ficou registrada para sempre na mente do menino.

Os desenhistas estavam certos em escolher uma moto para aquela ilha. Lá ocorre, desde 1907, a maior corrida de moto do mundo – Isle of Man TT (Tourist Trophy). Maior porque é a mais antiga, maior porque é a mais perigosa, maior porque é a mais longa, maior porque é a que tem mais curvas e maior porque sua história foi escrita por gigantes. A pista de rua percorre por boa parte do país de 80 mil habitantes: montanhas, campos e cidades. Os pilotos passam a um triz dos muros, desviam das placas, fogem dos bueiros e quase encostam o joelho na sarjeta. Tudo isso enquanto os moradores e turistas assistem bem de pertinho, das casas, dos barrancos e dos restaurantes à beira do percurso. A velocidade média dos pilotos mais corajosos é maior do que 200 km/h.

Mark era o nome do menino, que cresceu para ser o publicitário Mark Gardiner. Não tinha muita relação com as motos, a não ser com aquela da figura do mapa, que mesmo assim já estava quase esquecida. Mas, quando passou dos 30 anos, começou a repensar a sua vida, como fazem todos os homens. Mark passou a lembrar dos sonhos que tinha quando criança. Será que poderia ter sido um campeão no TT? Ele tinha deixado de andar de moto na adolescência, antes de poder descobrir. Talvez agora fosse a hora. Então, com a idade em que os profissionais costumam se aposentar, Mark decidiu começar a sua carreira de piloto. Não era nenhum gênio da pilotagem, mas participava de forma digna em corridas de final de semana. Até conseguiu uma carteira de piloto profissional expert na Associação Americana de Motociclismo. Não é tão pouca coisa para um amador.

Conheceu a Ilha de Man só em 2000, já aos 45 anos de idade. Foi como um turista comum, mas alguma coisa mudou no seu espírito. Ao voltar ao trabalho, na agência publicitária, tudo o impacientava, tudo parecia mesquinho e sem sentido. Poucos dias depois, conversando sobre a corrida que tinha assistido na Ilha de Man, um amigo motoqueiro perguntou, sem nenhuma pretensão, se ele participaria de uma corrida como aquela. Naquele exato momento, a pequena mudança que havia começado na Ilha de Man explodiu em um par de frases: “Sim, eu participaria. Aliás, eu vou no próximo ano”.

Brigou com o dono da empresa e foi cuidar da preparação. A corrida foi suspensa em 2001 por causa de uma epidemia de febre aftosa, mas em janeiro de 2002 ele desembarcou mais uma vez na ilha, agora como piloto e escritor. Seus planos eram participar da corrida, enviar algumas colunas para revistas de moto e depois escrever um livro em que contaria, além da preparação e da competição, como as motos chegam de barco, os dias em que a pista é aberta para os amadores, a vinda de novos ricos que não gostam da corrida e como é a vida na ilha no resto do ano.

Dizem que é impossível decorar as mais de 140 curvas. Pode não ser verdade, mas se for possível, só o é para alguém com bastante experiência no TT. Mark sabia que aquela seria sua única corrida. Não podia usar aquele ano só como experiência. Tudo tinha que dar certo. Por isso chegou cinco meses antes. Como a pista é pública, ele não podia treinar com a moto. Para compensar, ele fazia o percurso de bicicleta, decorando o percurso, observando cada mudança de terreno e calculando como deveria ser a tomada de cada curva.

No livro Riding Man, ele conta também a história de um monte de gente da ilha, para os quais a corrida anual é o símbolo da passagem do tempo e também das suas identidades – mecânicos, pilotos, donos de restaurante, vendedores, professoras, bibliotecárias e quase todos os outros dali. Até as superstições estão no livro, como a da Ponte das Fadas, onde ninguém tem a coragem de passar sem vocalizar pelo menos um oi para as suas protetoras. Como eu gosto muito de livros, uma das partes que eu mais gostei foi o capítulo em que ele fala sobre as suas idas à biblioteca, para pesquisar nos arquivos dos jornais locais tudo o que já havia sido dito, vivido, pensado e escrito sobre o TT. Daquele jeito, ele podia unir a vivência real nas pistas com a experiência passada de gente que não estava mais por perto.

Depois de um tempo, conforme Mark foi conhecendo melhor a geografia e a história da pista, o medo começou a permear o seu pensamento. Por exemplo, uma das fontes do medo de Mark eram as centenas de placas funerárias que as pessoas colocavam em volta da pista para indicar locais de acidentes. Isso era agravado pelas histórias que lia na biblioteca. Até que percebeu que as placas e os textos não representavam a morte. Muito pelo contrário, eram sinais de que grandes homens tinham passado por ali. As pessoas colocavam as placas não em homenagem aos que morreram, mas aos que tiveram a coragem de viver.

Quando chegou perto da corrida, as emoções se transformaram em uma tempestade. O sentimento de realização se confrontou com o medo do fracasso. Um monte de amigos viajou para assistir ao evento. Os turistas invadiram a ilha. Festa e cobrança, júbilo e medo – não é fácil viver o seu sonho.

Eu não vou contar se ele conseguiu se classificar ou não, se ganhou a corrida ou se teve um grave acidente. Nada disso importa. Só quero lembrar que isso não é um conto de fadas, é uma história real. Bem, pensando melhor, talvez seja sim uma fábula, do homem comum que pilotou sua moto na maior corrida de todas.

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Referência:

Mark Gardiner, “Riding Man”, Editora bikewriter.com (2007)

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Comentário do BLOG

O segundo texto que a Moto Adventure publicou em maio foi baseado no livro “Riding Man”, de Mark Gardiner, que fala sobre o Isle of Man TT, a maior corrida de motos do mundo.

Maior porque é a mais antiga, maior porque é a mais perigosa, maior porque é a mais longa, maior porque é a que tem mais curvas e maior porque sua história foi escrita por gigantes. A pista de rua percorre por boa parte do país de 80 mil habitantes: montanhas, campos e cidades. Os pilotos passam a um triz dos muros, desviam das placas, fogem dos bueiros e quase encostam o joelho na sarjeta. Tudo isso enquanto os moradores e turistas assistem bem de pertinho, das casas, dos barrancos e dos restaurantes à beira do percurso. A velocidade média dos pilotos mais corajosos é maior do que 200 km/h.

O livro é muito legal porque o autor era um semi-profissional quando participou da competição em 2002. Por isso ele descreve a corrida do ponto de vista de “uma pessoa comum”, com todos os medos e alegrias. Ele chegou na ilha alguns meses antes da corrida para poder treinar. Passou esse tempo decorando as curvas enquanto andava de bicicleta, conhecendo os moradores tradicionais e devorando a biblioteca local, que era cheia de histórias de triunfo e morte.

Revista Moto Adventure #126

Bastidores

Algumas colunas que eu escrevo são baseadas em dados, como o texto que eu escrevi sobre os heróis americanos do Grand Prix. Em outras eu misturo informações do livro com algumas histórias pessoais, como no caso do texto sobre o Ted Simon. No caso dessa coluna, não foi nem uma coisa nem outra. Por um lado, quase não falei nada de pessoal, a não ser que gostava de livros. Mas nas entrelinhas acho que dá para perceber que eu me identifiquei muito com a história: pela idade do cara, que é parecida com a minha, pela coragem de fazer algo de que se gosta mesmo que você não seja muito bom naquilo e pelo respeito à qualidade, ao fazer o melhor que se pode, nos treinos, na corrida e na escrita do livro.

Por falar em qualidade do livro, esse aqui é um pouco diferente. Isso porque, em geral, os livros de aventura são escrito por aventureiros, não por escritores. Então nem sempre a leitura é das melhores. Mas aqui o autor é um profissional da escrita. Dá para ver que ele se dedicou tanto à aventura quanto à escrita do livro.

Tenho outros livros que falam do Isle of Man TT, mas não usei quase nada, pelo menos conscientemente. Um deles é uma crônica do Peter Egan, chamada “Old Stone, Green Trees, & Speed”, que eu li na coletânea “Leanings: The Best of Peter Egan from Cycle World Magazine”. O texto original foi publicado em 1982. Outro livro é “The Magic of the TT: Centenary Edition”, de Mac McDiarmid, que conta os 100 anos da competição.