Grandes Livros Sobre Grandes Viagens de Moto

Em 1931, o jovem Robert Edison Fulton Jr. estava pensando em que viagem poderia fazer em comemoração ao final dos seus estudos de arquitetura na Universidade de Viena. Durante um jantar, em um momento falastrão em prol das moças, anunciou am alta voz que gostaria de fazer uma grande viagem de moto, mas que não a faria porque não tinha a máquina. Imediatamente um dos comensais disse que isso não era problema, porque ele era fabricante das motocicletas Douglas e que ficaria muito feliz por doar uma delas. A partir daí não haveria mais volta para o cavalheiro Robert Edison Fulton Jr., então com 23 anos de idade. O que se segue é uma viagem solitária de 40.000 km, que durou 18 meses. A viagem Londres e Tóquio teve tempestade de areia, tiros, prisão, contato com tribos, banquetes e muito mais. Tudo registrado no livro “One Man Caravan”, algo que poderia ser traduzido como “A Caravana de Um Só Homem”. Leitura fantástica.

Em 1973, sem jamais ter ouvido falar da viagem de Robert Edison Fulton Jr., um homem de 40 anos de idade, desiludido da vida, sem muito para o que voltar, sobe em sua Triumph para percorrer o mundo. Ted Simon, que viria a se tornar talvez o maior mito em viagens de moto, perambulou pelo mundo durante quatro anos e 103.000 km. Viveu quase todas as emoções humanas possíveis em quase todos os lugares do mundo. Nunca foi um grande piloto, mas talvez tenha sido o maior de todos os motoqueiros. Essa viagem está registrada em três livros: “Jupiter’s Travels”, “Riding High” e “Jupiter’s Travels in Camera”. Seu maior legado, por mais simples que possa parecer, foi sempre dizer e viver a seguinte lição: “os imprevistos são a viagem”. Aos 70 anos refez a viagem, comparando o que tinha visto em 1973 com o mundo do século XXI. Essa nova aventura está no livro “Dreaming of Jupiter”. Seus livros não são necessariamente para nos fazer sonhar com grandes aventuras. São, sim, para nos fazer transformar a vida em uma aventura, com todas as coisas boas e dificuldades que isso possa trazer. Falam sobre a vida, as mudanças inevitáveis e as perdas. Mas, principalmente, falam de como lidar com as inevitáveis vicissitudes dessa nossa viagem.

Estamos agora em 1985. O argentino Emilio Scotto aproveita algum plano econômico milagroso e compra uma Gold Wing, uma daquelas motos imensas feitas para andar somente no asfalto com todo o conforto do mundo. A economia do país volta a ir mal. Não sabendo exatamente o que faria da vida, resolve sair para uma volta. Vai até o Rio de Janeiro, onde roubam todo o seu dinheiro. Com a ajuda de amigos que faz na estrada, vai conseguindo progredir dia-a-dia. De forma inexplicável passa com sua moto imensa na floresta amazônica, dunas de deserto, pântanos e tudo o mais que se possa imaginar. No final das contas, essa sua voltinha da qual saiu sem dinheiro levou 10 anos para ser completada, em um percurso de 800.000 km. Mais para o final da viagem foi conseguindo patrocínios de revistas para onde escrevia. O resultado dessa viagem está no livro “The Longest Ride”, que poderia ser traduzido como “A Mais Longa das Viagens”. Mas na minha opinião deveria se chamar “Scotto, el Loco!”. A edição é muito bonita, em formato grande e capa dura, cheia de fotos.

1995. Um grupo de sete amigos ingleses resolve dar a volta ao mundo. Compram sete Suzukis DR350 e partem quase sem dinheiro. A viagem dura 400 dias, pelos quais andam 70.000 km. O humor dos rapazes é contagiante. Dormem acampados na beira da estrada e muitas vezes se alimentam apenas de legumes cozidos. Fazem amizade em todos os lugares em que passam. Registraram a viagem em um livro e um vídeo chamados “Mondo Enduro”, que rapidamente se tornaram cult no motoqueirismo. Alguns membros do grupo fizeram novamente a viagem, registrada no vídeo “Terra Circa”, que eu ainda não tive a oportunidade de assistir. “Mondo Enduro” não é um livro profundo, mas não deixa de ser sobre filosofia de vida. É engraçado do início ao fim. É a própria leveza na forma de palavras.

Em 1997, Neil Peart perdeu a sua filha única em um acidente de carro. Dez meses depois sua mulher morreu de câncer. Desiludido da vida, o baterista, líder e principal letrista da banda Rush, pega a sua BMW big trail e sai pelos Estados Unidos e México. Dia a dia mantém-se em movimento para não precisar pensar. Com o tempo vai se curando, reencontrando amigos, enfrentando fantasmas, se reaproximando da música e recriando uma razão para viver. Sua viagem, de 85.000 km, está registrada no livro “Ghost Rider”. Ele escolheu este título sem nenhuma referência ao personagem de quadrinhos, mas sim para expressar que se sentia como um fantasma rodando sem se prender a nenhum lugar ou pessoa, como se fosse uma alma penada. Uma grande lição de vida.

Finalmente pulamos para 2004. O grande astro do cinema Ian McGregor e seu amigo Charles Boorman resolveram dar a volta ao mundo de motocicleta. Ian McGregor é conhecido pelas suas atuações em Star Wars, Big Fish, Trainspotting e muitos outros filmes. Boorman nunca obteve sucesso como ator, sendo mais conhecido como o filho do grande diretor John Boorman. A viagem dos dois – de 31.000 km em 3 meses, indo de Londres a Nova Iorque – é controversa porque envolveu grande investimento para a preparação e filmagem. Mas existem três grandes razões para que essa viagem sirva de grande inspiração aos motoqueiros. Em primeiro lugar, a equipe de apoio atuava apenas nas filmagens e nas fronteiras entre países, não influenciando a viagem propriamente dita. Outro fator importante é a qualidade do registro em filme, que permite ver o dia-a-dia dos viajantes. Finalmente, o fato dos dois não serem pilotos profissionais fez com que enfrentassem desafios diariamente. Qualquer trecho com areia percorrido, rios atravessados ou problemas mecânicos resolvidos eram vividos como grandes vitórias. Exatamente como qualquer viagem de amadores. Como resultado da viagem temos o livro “Long Way Round” e o documentário em seis episódios de mesmo nome. Teve ainda uma sequela, também com livro e vídeo, chamada de “Long Way Down”, onde descem para África. Mas nessa viagem o cronograma apertado criou um clima desgastante, além da equipe de apoio ficar o tempo todo interferindo na viagem por receio à segurança dos astros. Boorman participou ainda de dois projetos solo: “Race to Dakar”, sobre sua preparação e participação no rally e “By Any Means”, onde vai de Londres até a Austrália utilizando a maior variedade de meios de transporte possível. São todos bons documentários e livros, mas nenhum consegue reviver a magia e inocência do fantástico “Long Way Round”.

O meu preferido? Todos! O espírito aventureiro de Robert Fulton Jr., a sabedoria de Ted Simon, o desprendimento de Scotto, o humor do Mondo Enduro, a vitória de Neil Peart e o fascínio inabalável vivido pelos rapazes do Long Way Round.