Motos, Livros… e Motos

Eu tive uma ótima surpresa quando comecei a ler o livro “Riding with Rilke”, de Ted Bishop. Para começar pela capa da edição que eu recebi pelo correio. O livro é de um verde claro, mas vem com manchas nas extremidades, simulando um livro antigo. Não um livro que teria ficado guardado por muito tempo na estante, mas sim um daqueles livros bastante manuseados. Além de tudo isso, o papel da capa tem uma rugosidade diferente, gostosa de tatear.

A história real conta os dias em que o professor Ted Bishop, professor da Universidade de Alberta (Canadá), ganhou seis meses para fazer uma pesquisa sobre Virginia Woolf em Austin (Texas). Como ninguém se lembrou de colocar no contrato que ele deveria ir de avião, Bishop faz a viagem de 10.000 km em sua Ducati. No decorrer do livro, Bishop mistura suas duas paixões: mergulhar em arquivos de livros antigos à procura de pistas e pilotar a sua motocicleta. Em vários momentos consegue fazer a ligação entre esses dois mundos, como por exemplo na vida do grande escritor e amante de motos T. E. Lawrence (Lawrence da Arábia). Será que aquelas manchas de graxa que ele encontrou em um original provavam que ele manuseava seus livros logo após algum passeio em sua Brough Superior? Mas o livro de Ted Bishop não é só seriedade. Na maior parte é muito engraçado, como quando ele explica a sua “teoria” de como os vendedores de moto nos enrolam para vender mais acessórios.

Para quem gosta de livros sobre livros, recomendo “Passion for Books”, “A Gentle Madness” e “Library: An Unquiet History””, que falam sobre os livros como objetos, não sobre seus conteúdos. No primeiro e no segundo, os autores contam um monte de histórias deliciosas sobre colecionadores malucos que fazem de tudo para ter mais um livro. É muito parecido com o amor que temos pelas motos. O terceiro livro fala mais sobre as bibliotecas, sua importância na história e os personagens diferentes que perambulam pelos seus corredores. Eu não consigo deixar de associar a imagem de alguém andando pelos corredores de uma biblioteca atrás de um livro perdido com alguém andando pelas estantes de um depósito à procura de uma peça para sua moto em restauração.

Tem também dois livros de ficção sobre livros que eu gosto bastante. Em “The Word” temos a estória da descoberta de um novo evangelho que mudaria a história de Jesus Cristo, com as claras implicações políticas mundiais que podemos imaginar. O que se segue então é uma grande investigação para descobrir se é autêntico ou não. Isso no meio de um monte de gente que tem todos os interesses do mundo tanto para que o livro seja ou que não seja autêntico. “The Club Dumas” conta a estória de Lucas Corso, um detetive de livros antigos. Ele é capaz de qualquer coisa para por as mãos em livros raros, para depois vendê-los por uma fortuna para algum colecionador. Isso até que é contratado para encontrar a cópia de um livro que teria sido escrito pelo próprio Lúcifer. O livro “The Club Dumas” foi transformado em um filme, interpretado por Johnny Depp (“Ninth Gate”, ou “O Último Portal”). É um dos casos em que o filme é melhor que o livro, uma mistura perfeita de aventura com suspense noir.

Agora percebo que enquanto escrevia este texto acabei me perdendo um pouco. Comecei escrevendo sobre livros com motos e acabei falando de livros com livros. Bem parecido com quando você sai de moto por aí sem rumo. Vai seguindo o caminho mais legal e, quando vê, está em um lugar em que nem sonhava chegar. Mas o engraçado é que quando estava procurando o trailer deste filme do Johnny Depp para relembrar da atmosfera, lembrei que há uma cena de moto. Nela, Dean Corso (no livro é Lucas, no filme é Dean) anda na garupa de uma misteriosa mulher. Mas só quem assistir saberá se ela é a personificação do diabo, de um anjo ou apenas uma linda mortal.

Então, começamos o texto com motos, passeamos pelo país dos livros e voltamos para as motos. Como diria o sábio: “lá no fundo, escolha é um termo que carece de significado”. Sem sombra de dúvida, “Riding with Rilke”, do Ted Bishop, é um dos livros mais legais que eu tenho de motoqueirismo. Isso porque é engraçado, inteligente e porque mistura três das minhas paixões: livros, vida acadêmica e motos.