Heartlands (2002)

Heartlands (Pé na Estrada, 2002)

Como uma pessoa quase normal, claro que de vez em quando eu me pego falando mal de alguém ou de alguma coisa. Também costumo escrever reclamando de tudo, mas são só desabafos no papel, que depois eu me esforço para não publicar. Às vezes escapam algumas críticas, como em relação à fissura que algumas pessoas têm de sempre ter uma moto nova ou sobre as revistas que só fazem propaganda para as fabricantes. Mas acredito que, na maioria das vezes, consigo poupar os leitores desses chiliques. Se algum assunto não aparece por aqui, ou se não comento o último lançamento comercial, pode ter certeza que é porque não tenho nada de bom a acrescentar.

Mas agora estou entre a cruz e a espada. É que um dia desses eu assisti a um filme em que a moto é uma das participantes principais. Não tem como não falar disso, ainda mais que a moto é uma simpática Honda C50. Eu sou o maior fã de quem anda com moto pequena, já que para mim são os verdadeiros aventureiros. O problema é que o filme não consegue fazer você se importar com o personagem principal. O filme não deu liga, ficou chato e deprimente. Fiquei matutando um bom tempo se valia a pena escrever esse texto rabugento. Mas depois pensei que seria legal pelo menos para divulgar a existência do filme para quem ainda não o conhece. Cada um que faça o seu juízo.

Cenas de Colin na sua moto, Heartlands (2002)

A história é simples. Colin era um carinha casado que levava uma vida parada. Um dia descobriu que a mulher o traía. Ao confrontá-la, ela foi embora com o amante para outra cidade. Colin, então, colocou a sua Honda 50cc na estrada para reencontrar a sua mulher e talvez reconquistá-la. No caminho, encontrou um monte de gente. Receita clássica para um road movie, mas os caras perderam a mão completamente.

O filme trata de alguns assuntos interessantes, como a autodescoberta, a amizade na estrada e o preconceito contra motos pequenas. O problema é o personagem principal: o cara não evolui (a não ser no último minuto do filme), não tem raiva, não tem uma vida própria, demora para tomar qualquer atitude e é lerdo que nem um caracol. Para quem está assistindo ao filme, simplesmente não importa se o cara vai conseguir reconquistar a mulher ou não. Não importa se ele vai se transformar em um homem melhor ou não. Tanto faz.

A questão não é que ele seja um homem traído (Rei Arthur também foi, mas é um personagem para o qual torcemos), nem que ele seja muito sensível (Forrest Gump era sensível e nós nos importamos com ele), nem que seja uma pessoa simples (impossível ser mais simples que os personagens de Charles Chaplin, como também é impossível não gostar deles), nem que seja repulsivo (quem pode ser mais repulsivo do que o Monstro Frankenstein?). O problema é que o cara do filme, o Colin, tem sangue de barata, músculos de caramujo e emocional de geléia. Você não torce por ele, torce é para o filme terminar logo.

Forrest Gump

Então, agora que o filme já está comentado, vamos deixá-lo de lado um pouco e falar de coisas legais. Esse é o jeito que eu uso para me desintoxicar: fugindo em bons livros e bons filmes. Aproveitando alguns personagens que eu citei ali em cima, tanto Forrest Gump quanto o monstro Frankenstein nasceram nos livros e depois foram para o cinema. Tudo bem que Forrest Gump tinha um grande defeito, que era ser extremamente conservador. Mas ele compensava isso com uma sensibilidade aguda para perceber o que afligia as pessoas. Por exemplo, durante a guerra, sua maior preocupação era com a vida dos seus amigos. Algumas pessoas dizem que isso o fez um alienado, pois não lutou contra a guerra do Vietnã. Pode ser, mas, no final das contas, o que faz você gostar de um personagem não é se você concorda com ele ou não, mas sim se você pode compreender a sua motivação e os seus conflitos.

Frankenstein é um dos meus livros preferidos. Foi lançado por Mary Shelley em 1818, quando a menina tinha apenas 21 anos. Na história, o médico Frankenstein montou um ser vivo a partir de partes de defuntos. Ao ver que tinha dado origem a um monstro, ele fugiu para sua terra natal. O monstro, sozinho e odiado por todos por ser diferente, teve que se esconder. Espionando os outros, aprendeu a falar e a se portar. Foi então de encontro ao médico, pois queria aprender como foi criado e qual era a sua missão aqui na terra. Mas o doutor rejeitou mais uma vez o monstro, que então ficou revoltado por não ser amado por seu pai. O monstro, que não tinha nome, dedicou então todas suas forças para destruir a vida do médico. O livro é uma metáfora para a relação entre o homem, imperfeito, em busca de respostas de Deus, seu criador.

Monstro Frankenstein

Voltando ao filme Heartlands – o pequeno interlúdio sobre Frank & Gump melhorou um pouco o meu humor -, nem sempre uma boa idéia vira uma boa história. Mas, por pior que seja o filme lá de cima, ele foi feito com cuidado e qualidade. Impossível assistir a um filme desses sem pelo menos pensar em algo novo. Só por isso já vale a pena.

Às vezes a gente não gosta de alguma coisa exatamente porque ela nos diz uma verdade que não queremos escutar. Quem sabe a mensagem desse filme não seja exatamente essa, de como somos acomodados na vida? De que mesmo nos fantasiando de motoqueiros rebeldes não temos coragem de mudar o que realmente importa, nem de perceber o que realmente vale a pena mudar? Vai saber… talvez não seja um filme ruim, apenas verdadeiro demais.

Ainda, pode ser que eu tenha assistido em um dia em que estava cansado, por isso minha impaciência. Para dar uma idéia de como eu não sou muito confiável nas minhas avaliações, acho o filme “O Carteiro e o Poeta” um dos filmes mais chatos do mundo, embora quase todo mundo adore. Portanto, não levem muito em conta a minha rabugice. Experimentem assistir Heartlands… mas não me chamem.