Throttling the Bard – Acelerando o Bardo

Ficção Universitária

Um dos estilos de livro que eu mais gosto é o “campus novel“, que é ficção sobre professores universitários. Devo ter uns vinte livros desse tipo. As histórias sempre são engraçadas. Mas isso só na superfície, pois na verdade fazem duras críticas a esse mundo, onde as pessoas vivem quase sempre da imagem. O que importa é o modelo do seu carro, quantas viagens internacionais fez no ano, quais são suas excentricidades, quantos contatos importantes tem no governo, quem você conhece na administração, sua capacidade de depreciar os outros pelas costas, com quem você é visto almoçando e o número de caracteres em seu currículo. Sabedoria? Talvez seja importante para o mundo real, mas nesses livros isso é coisa secundária. Além de criticarem a farsa, esses livros também lidam com a dificuldade que as pessoas têm de viver assim: a inutilidade das reuniões pomposas, o vazio das amizades de congresso e o Inferno de Sísifo vivido na eterna busca de metas arbitrárias.

Um “campus novel” virou filme: Wonder Boys (Garotos Incríveis), escrito em 1995 por Michael Chabon e lançado nos cinemas em 2000. Foi estrelado por Michael Douglas (representando um professor e escritor decadente), Tobey Maguire (autor promissor) e Robert Downey Jr. (editor de livros). A história trata de um escritor que só encontra a plenitude depois de ter a coragem de largar a vida acadêmica. Mas não sem antes engravidar a reitora, matar o cachorro do chefe do departamento, escrever um livro de 3000 páginas, ser seduzido por uma aluna que nunca tira as botas vermelhas, ser perseguido por dirigir um carro roubado, dar um sumiço em um casaco da Marilyn Monroe e fumar um punhado de baseados.

Throttling the Bard

Como todo mundo sabe, também gosto de ler qualquer coisa sobre motos. E agora, até que enfim, consegui encontrar um livro que junta as duas coisas: sátira ao mundo universitário e a vida em cima de uma moto. O título do livro é “Throttling the Bard” (2010), que poderia ser traduzido literalmente como “Acelerando o Bardo”.

Os dois personagens principais são Don Vendicarsi e Quentin Mann. A história se passa nas redondezas de Las Vegas, onde foi criada a”Faculdade Escolástica, Tecnológica e de Dança” para lucrar com as dançarinas dos cassinos. No começo do livro, a administração de um banco descobre que o professor Vendicarsi havia, durante muitos anos, alterado o cadastro de alunos carentes para facilitar que conseguissem crédito educativo. Ele era uma espécie de Robin Hood universitário. Tinha sido divertido enquanto ninguém descobrira,  mas agora o banco queria reunir-se com ele para uma conversa séria, em Reno, dali dois dias. Desta vez Vendicarsi não tinha escolha a não ser cumprir a ordem dos poderosos. Para companhia, convidou Quentin, um doutorando da faculdade, para pegarem a estrada juntos.

Para encurtar uma longa história, na curta viagem de moto por 500 milhas, os dois personagens conseguiram queimar a fazenda de um culto religioso, sequestrar uma menina de 17 anos, demolir o andar de um prédio com bomba caseira, confundir uma rebanho de ovelhas com um exército, passar uma noite no deserto bebendo peiote, corrigir todos os erros gramaticais que encontraram nos banheiros, puxar briga com um motoclube inteiro e se hospedar em um bordel onde a cafetina era graduanda em literatura. Tudo isso enquanto a polícia perseguia os dois por achar que eram os maiores criminosos que já passaram pelo estado de Nevada. Difícil resumir tudo por aqui. Mas, para se ter uma idéia, o livro tem sido descrito como:

uma mistura de Dom Quixote, Easy Rider, Pulp Fiction e On the Road.

Burning Man

Em uma parte da história, os dois passam um tempo em um festival chamado Burning Man. Pensei que o autor tinha inventado isso, mas depois descobri que existe de verdade. Aliás, é o festival mais famoso dos nossos tempos. Eu sou a única pessoa do mundo que não ouviu falar.

Esse festival acontece uma vez por ano, em Black Rock Desert. Em 2011 vai ser entre 29 de agosto e 04 de setembro. Nesses dias, os caras montam uma cidade para 50.000 pessoas bem no meio do deserto. Não há atrações centrais. As pessoas são a atração. Cada um leva sua fantasia, sua obra de arte, seu prazer, sua invenção e sua comida. Há 10 princípios básicos, que incluem a aceitação de todas as diferenças, não uso de dinheiro, autoexpressão total, esforço comunitário e não deixar traços.


Para entrarem no Burning Man, Vendicarsi e Quentin, ainda montados em suas motos, são embalados em papel alumínio para se passarem por estátuas. Lá dentro, descobrem uma cidade em efervescência cultural, coisa muito diferente do dia a dia tacanho que vivem no campus. Tristes tempos onde as faculdades são lugares de monotonia, mercantilismo, burocracia e politicagem. Ainda bem que isso é só na ficção.

Neste livro, mais uma vez a moto foi usada para representar a individualidade e a busca por um caminho único, fugindo das estradas principais. O autor usou a viagem em duas rodas para expressar os riscos de viver no mundo de verdade, longe dos muros protetores da prisão. Andar de moto pode matar, mas para morrer a pessoa tem que estar viva.