Turbulência
Engenharia Mecânica

Em 1986 eu ainda morava no interior de São Paulo. Não fazia a menor idéia do que era uma universidade, muito menos do que fazia um engenheiro mecânico. Eu gostava só de física e matemática, o que não podia ser diferente, já que eu faltava nas outras matérias para pegar a estrada com a minha Monark 10. Morávamos a 700 km da praia mais próxima, Santos-SP. Camboriu-SC ficava a 1000 km, não muito mais longe. Por isso era o lugar da moda para as férias de verão da classe média. Penso que todo mundo na minha cidade via aquela praia como a terra prometida. Florianópolis, que ninguém dava bola, ficava uns 100 km depois.
Nessa época, aos 17 anos, estávamos eu e um amigo olhando para um mural no colégio. Havia um monte de cartões pregados, cada um com uma universidade brasileira oferecendo seus cursos. Nós dois gostávamos de computação, mas, por alguma razão que fazia sentido na época, concordamos que não poderíamos fazer o mesmo curso. Meio arbitrariamente, entre as engenharias, eu escolhi a mecânica. Meu colega ficou com a elétrica. Agora faltava o lugar. Florianópolis, né? Pertinho do paraíso.
Só depois que eu passei no vestibular é que descobri que o curso de engenharia mecânica da UFSC era o melhor do Brasil. Vá ter sorte assim lá no primeiro círculo do inferno. Pelo mais puro acaso, eu havia feito a escolha por um curso que eu aprenderia a gostar e ainda tive a oportunidade de estudar no melhor lugar de todos.
Mas estou me adiantando, pois no começo do curso ainda não sabia muito bem o que eu ia fazer por lá. Nos primeiros dias de aula, apareceu um professor para falar da área de Ciências Térmicas, que lá na UFSC reunia Termodinâmica, Fenômenos de Transporte e Sistemas Térmicos. Eu fiquei apaixonado. De uma hora para outra, me transformei em um garoto que não sabia o que fazia na graduação em alguém que já sabia que ia fazer o doutorado. Dito e feito, nove anos depois de entrar na universidade, agora já com 26 anos de idade, eu defendi a minha tese. Exatamente como eu havia escolhido naquela aula no início do curso.
Interessante como pequenas escolhas, como definir um curso por causa de um papel pregado no mural, ou escolher uma carreira acadêmica por causa de uma única apresentação, podem determinar completamente a vida de alguém. Já pensou se tivessem mandado outro professor na aula? Ou se não tivessem pregado o papel da UFSC no mural? Depois eu viria para Pernambuco de uma forma parecida, mas isso é outra história.
Dentro dessa área eu já trabalhei em várias subáreas: Refrigeração, Meios Porosos, Termodinâmica, Otimização de Sistemas Térmicos e Transferência de Calor. Legal, mas tenho uma certa frustração por não ter trabalhado mais profundamente em outras: Energia Solar, Energia Eólica, Combustão e Turbulência. Paciência. Eu sei que não é por incompetência, mas simplesmente porque ninguém pode estudar minimamente bem todas as coisas do mundo.
Turbulência

Mesmo não trabalhando nessas subáreas, fiz um monte de disciplinas e continuo meus estudos solitários sempre que posso. Também gosto de ler livros de divulgação científica ou de ficção que tratem desses assuntos. Outro dia descobri um livro de 2010 chamado Turbulência, escrito por Giles Foden. Estava na lista do John Mullan (The Guardian) sobre livros bons que por acaso tinham motos no meio.
A história se passa em 1944, alguns meses antes da invasão dos aliados na Normandia. O famoso Dia D, que na época era conhecido como Operação Netuno. Por razões táticas, a invasão tinha que ser em lua cheia (para permitir visibilidade para as aeronaves), maré baixa (para que pudessem fugir das minas) e tempo bom (para facilitar o desembarque). Esse momento certo tinha que ser escolhido vários dias antes, para dar tempo para o deslocamento de quase 200.000 soldados. Para se ter uma ideia, usaram cerca de 5.000 navios. O problema é que até hoje não se consegue fazer uma previsão climática com muita antecedência, imagine naquela época em que não havia computadores para fazer os cálculos.
O cientista Wallace Ryman (personagem fictício baseado em Lewis Fry Richardson) havia determinado um método para previsão do tempo com maior tempo de antecedência. Era isso que os aliados precisavam. O problema é que o cientista havia se transformado em pacifista depois de ter vivido horrores na Primeira Guerra Mundial. Depois daquilo, seu conhecimento era usado apenas para determinar porque as guerras começavam e como evitá-las. Os militares então enviam o jovem matemático Henry Meadows para tentar extrair alguma informação do cientista, que vivia recluso em uma fazenda na Escócia.
A primeira metade do livro ocorre em Dunoon (Escócia), onde Henry se aproximou de Ryman. Ali eles discutiram os efeitos da turbulência no clima, como fazer as medições do vento, como administrar um computador constituído de 5.000 homens fazendo contas, quais eram os limites da ciência e a responsabilidade dos cientistas.
O exército havia deixado uma moto para Henry. Enquanto ele não conseguia tirar de Ryman as informações sobre o seu modelo climático, Henry circulava de moto pela região, conhecendo outros cientistas geniais, mulheres fatais e militares pragmáticos.
Um pouco antes de Ryman morrer em um acidente, ele deixou pistas para Henry. Este voltou para a Inglaterra, integrando agora um grupo de metereólogos responsáveis pela previsão do clima. Essa segunda parte do livro também é bem legal, pois mostra um embate científico colossal. Cada um defendia uma abordagem: uso de dados históricos, cálculos teóricos ou confiança na experiência pessoal. Todas as reuniões eram cheias de brigas e de discórdia.

A próxima janela (conjunção de lua cheia e de maré baixa) seria no dia 6 de junho, uma terça-feira. No domingo anterior, de repente, todos os cientistas resolveram concordar. O problema é que concordaram que o dia escolhido seria de mau tempo. Isso era ruim, porque os alemães já tinham percebido que as tropas aliadas estavam se deslocando. Se houvesse um adiamento, os alemães poderiam se preparar melhor.
Mas daí o jovem Henry conseguiu finalmente decifrar as pistas de Ryman. Depois de uma noite de intenso trabalho, calculou que haveria algumas horas de estabilidade na manhã da terça-feira. Exatamente o que eles precisavam. O resto é história, com os aliados desembarcando em relativa segurança, libertando a França e acabando com os nazistas.
Motos e Clima
A moto aparece em toda a primeira parte do livro, quando Henry, um motoqueiro inexperiente, perambulava pelas trilhas de Dunoon em busca de conhecimento, amigos e paixões. O autor usa a moto para criar um personagem solitário, que ainda não tem um andar firme, mas que não tem medo de buscar caminhos alternativos em sua vida. O clima também é muito usado no livro, para demonstrar a incapacidade humana de prever e controlar o destino.
Para quem não anda de moto, um dos maiores inconvenientes é o clima. Por isso eles andam protegidos em carros quase blindados, para não ficarem suados com o sol, molhados com a chuva ou sujos com as lufadas de vento. É como se eles tivessem aversão a qualquer efeito da natureza. Tudo tem que ser limpinho, protegido, controlado, ordenado e silencioso. Parece até que o sonho deles é viver dentro de um hospital.
Quem anda de moto aprende que não pode controlar o clima, que não pode lutar contra a natureza, contra o trânsito e contra a vida. Quem anda de moto aprende a andar pelos atalhos, a costurar nos congestionamentos, a saudar o sol queimando na sua pele e a receber a chuva de presente.

Pode apostar que um motoqueiro só não gosta dos elementos quando está indo para o encontro de alguém que não anda de moto: sua namorada que não suporta o cheiro do seu suor ou seu patrão que não aceita que alguém ande molhado. Mas, se o motoqueiro não têm compromisso com o mundo dos quadrúpedes, então tenha certeza que ele recebe de peito aberto a chuva que limpa, o sol que aquece na medida certa e o vento que refresca à perfeição. De bônus, vêm ainda o cheiro das flores, o canto dos passarinhos e um caldo de cana gelado na próxima parada.





