Reine Sobre Mim (2007)

Poster do filme Reign Over Me

O que é uma moto?

Eu costumo brincar que moto é um negócio em que se anda montado, com duas rodas e com motor que faz barulho e solta fumaça. Isso exclui Vespas, triciclos, sidecars e motos elétricas. É claro que é brincadeira. Todas são motos.

Mas, para falar a verdade, não é muito fácil definir o que é uma moto. Talvez a definição pudesse ser algo assim: “moto é um veículo motorizado com duas rodas de trilho único”. Isso incluiria Vespas e Gold Wings, motos a vapor e motos elétricas, mas excluiria os segways, aqueles carrinhos que os seguranças usam no shopping . Até aí tudo bem, só que essa definição exclui também os triciclos e os sidecars, que definitivamente fazem parte do mundo das motos. Paciência, talvez não exista uma definição compacta, talvez tivesse que ser “moto é um veículo motorizado com duas rodas de trilho único, com ou sem sidecar, ou triciclo motorizado”.

Posso quase apostar que daqui a pouco vou lembrar de outra exceção para essa definição. Uma alternativa é não dar tanta bola para a forma da moto, mas sim para a sua função. Quem sabe: “moto é um veículo para libertar o corpo, a mente e o espírito, através da mobilidade, da agilidade e do contato com os elementos”. O que implicaria logicamente em dizer que, por ser um agente da liberdade do espírito, no limite ideal a moto deveria ser tão leve a quase não poder mais ser notada. Com o que eu concordo plenamente, pois cada vez gosto menos de motos marombadas. Hoje em dia há umas motos 250cc com tamanho de 1000cc e umas 1000cc que são quase do tamanho de um carro.

Juntando as duas definições (a definição da forma e a definição da função com suas consequências lógicas), teríamos:

“moto é um veículo motorizado com duas rodas de trilho único, com a função de libertar o corpo, a mente e o espírito, sendo tão leve quanto o possível”.

 

De onde concluímos que a moto perfeita é um patinete motorizado. Isso pode não ser tecnicamente correto, mas na prática é. Não consigo pensar em nenhuma característica importante de uma moto que o patinete não tenha. Bem, alguém poderia falar que você precisa andar em pé em alguns modelos de patinete. Se isso fosse fundamental para definir uma moto, então moto trial não seria moto.

Patinete motorizado, a essência da moto.

Então, para mim, patinete motorizado é sim uma moto. Muito mais do que isso, o patinete é o limite ideal da moto, um veículo que tem duas rodas em um único trilho, motor, e que nos dá mobilidade, agilidade e contato com os elementos.

Reign Over Me (Reine Sobre Mim) – Filme

Agora, se já é difícil encontrar bons livros e filmes sobre motos convencionais, imagine então sobre patinetes. Mas a sorte é que tem um filme muito legal em que o patinete é um personagem de primeira linha: Reign Over Me (Reine Sobre Mim, 2007). É a história de dois companheiros de faculdade que se encontraram depois de vários anos. Alan (Don Cheadle) havia se tornado um homem financeiramente bem sucedido, com família e uma clínica odontológica. Charlie (Adam Sandler) tinha se transformado em um maltrapilho, que vagava pela cidade em seu patinete motorizado, cabelo desgrenhado e um fone de ouvido pendurado no pescoço, pronto a ser usado para afogar memórias e imagens que apareciam em sua cabeça.

Charlie havia chegado a esse estado por causa da morte da sua mulher e filhas em um acidente de avião. Para ele a vida não fazia mais sentido, ele era um sonâmbulo que vivia para lembrar do seu sofrimento. Alan, que aparentemente estava  bem, também não estava feliz, pois vivia em um ambiente opressor.

Com a amizade, os dois começaram a reconstruir as suas vidas. Alan convenceu Charlie a falar com uma psicóloga (Liv Tyler), enquanto Charlie ajudou Alan a retomar as rédeas da sua vida, deixando de ser comandado pelos seus sócios e pela sua mulher.

Trailer do filme

Legal como o diretor usou o patinete durante o filme. No começo, Charlie vagava com ele pela cidade como se fosse um fantasma. No meio do filme, em que a amizade foi reconstruída, as cenas em que os dois andam de patinete se transformaram de solitárias em inspiradoras: dois amigos se movendo pelo mundo, fazendo o seu próprio caminho, brigando com ônibus gigantescos, invadindo túneis e rodando do nascimento do sol até o império da lua. Já na parte final, quando Alan resolveu voltar para sua mulher, foi tranquilo com o patinete, como se fosse um cavalo com o qual se retorna de uma batalha.

O filme é muito pesado, pois retrata bem o sofrimento de um homem que perdeu tudo o que amava em sua vida. Da mesma forma, mostra como pode ser importante cada palavra de apoio, cada sorriso sincero, cada novo amor e cada passeio de patinete. A personagem da Liv Tyler é inesquecível. Com todo o carinho do mundo, ela espera o momento certo para ajudar Charlie. Mesmo sendo uma profissional, ela se importa com ele.

Adam Sandler e Liv Tyler

Love, Reign O’er Me (Amor, Reine Sobre Mim ) – Música

A música principal do filme é “Love, Reign O’er Me”, da banda The Who, que faz parte da ópera rock Quadrophenia. O interessante é que essa ópera, que depois virou filme com o mesmo título, fala de um garoto que faz parte dos Mods, movimento de motoqueiros ingleses dos anos 60, que andavam de Vespas e que eram inimigos dos Rockers. Eu já tinha falado sobre eles quando comentei do filme Quadrophenia. Por isso, até se eu não achasse que os patinetes motorizados fossem a essência das motos – o que eu acho -, mesmo assim eu falaria deste filme.

Na ópera Quadrophenia, essa música é tocada na última parte, quando Jimmy (o personagem principal) tem uma epifania. Depois de ter encontrado tanta gente, ele agora tem certeza de quem ele realmente é: “ele mesmo”. Neste filme, Reign Over Me, acontece a mesma coisa. Tanto Alan quanto Charlie têm que passar por um monte de privações, têm que fugir algumas vezes, enfrentar moinhos em outras. Mas, no final, os dois descobrem que são “eles mesmos”. Deixam de ser comandados pelo sofrimento e passam pelos portões de entrada para um novo reino.

Trilha sonora do filme