O Ratinho e a Motocicleta

Sempre que chega um livro novo pelo correio, a primeira coisa que eu faço é ler o prefácio e a introdução. É nessa parte que o escritor conta a sua motivação, os desafios da publicação e onde ele tem mais liberdade para falar tête-a-tête com o leitor. Ao ler um desses livros, o autor me contou que quando era criança tinha lido 572 vezes os livros de um ratinho que andava de moto, um tal de Ralph S. Mouse.

Embora seja um livro antigo, de quase 50 anos, encontrei fácil. É sucesso até hoje. O ratinho apareceu primeiro em The Mouse and the Motorcycle (O Ratinho e a Motocicleta, 1965), escrito por Beverly Cleary (nascida em 1916). Esse livro teve duas sequências, Runaway Ralph (Ralph Fugitivo, 1970) e Ralph S. Mouse (O Ratinho Ralph, 1982). A história foi escrita especialmente para crianças de 8 a 12 anos, mas é legal também para quem está aprendendo inglês.

O ratinho Ralph vivia com sua família nas paredes do quarto 215, no hotel californiano Mountain View Hill. A vida dos ratos era se esconder durante o dia e buscar comida durante a noite. Muitos de seus parentes haviam morrido vítimas de ratoeiras, envenenados com remédios ou caçados por vassouras. Por isso todos tinham muito medo dos humanos. Tudo era arriscado. Era preciso ter muito cuidado com tudo.

Em uma tarde, o menino Keith se hospedou no quarto 215. O ratinho Ralph foi até o buraco da parede para ver se o menino tinha alguma comida, mas encontrou algo muito melhor: uma motinha vermelha de brinquedo, com escape todo cromado e do tamanho certo para um ratinho.

Assim que Keith foi para o banheiro, o ratinho tentou andar na moto, mas caiu da mesa e ficou preso na lata de lixo. Pensou que seria a sua morte. Quando o menino o encontrou, ao invés de ficar com medo ou com raiva, chamou-o para brincar. No começo o ratinho achou estranho que os dois pudessem se entender, mas depois pensou que duas criaturas que compartilham o amor por motos certamente deveriam falar a mesma linguagem.

Esse é só o começo do livro, que tem um monte de aventuras de Ralph com a motinha emprestada por Keith. Mas essas aventuras são só uma camada superficial da história, que na verdade é um conto que fala de diferenças, preconceito, medo da vida, amadurecimento, responsabilidade e consideração pelos outros.

Os humanos não gostavam dos ratos, que por sua vez não confiavam nos humanos. As duas mães, a do menino e a do ratinho, tinham medo de tudo. Para elas, segurança era tudo, mesmo que seus filhos crescessem covardes, acomodados e sem iniciativa.

O que eu achei mais legal do livro é que ele incentiva as crianças a vencerem desafios correndo alguns riscos. Ao contrário do que se lê hoje em dia - histórias para se ter cuidado com tudo -, este livro mostra como o desejo pela liberdade, pela velocidade e por conhecer lugares novos fazem parte do amadurecimento das crianças. É muito legal a parte quando o ratinho pega a moto e sai desbravando o hotel. Ele nunca tinha saído do quarto 215, mas agora tinha coragem de ir até o 211.

Já pensou um livro que incentivasse as crianças a andar de moto hoje em dia? Acho que o autor seria preso, a editora seria fechada e o livro censurado na hora.

Voltando um pouquinho para a história, o grande mistério no começo do livro é como a motinha podia andar de verdade pelos corredores do hotel. Bem, mistério só para as meninas e para os adultos, porque os meninos sabem que basta fazer “vroooom-vrooom” que qualquer brinquedo ganha vida na hora.

Adaptação de The Mouse and the Motorcycle para a televisão (1986)