A Estrada Melhora Daqui Para Frente

Andar de moto é perigoso. Por isso é preciso tomar muito cuidado. O cuidado fundamental é nunca deixar o destino ser mais importante do que a jornada. Quando isso acontece, o motoqueiro deixa de aproveitar a paisagem na estrada, deixa de curtir a pilotagem nas ruas e deixa de sentir o movimento do corpo nas acelerações, nas freadas e nas curvas. Esse tipo de atitude, de não se concentrar no momento, é a principal causa dos acidentes – não a velocidade, as manobras ousadas ou a falta de equipamentos de segurança. Afinal, todo mundo sabe que a principal causa dos acidentes das motos são os carros com motoristas distraídos. Além disso, quando alguém pensa no futuro, e não no presente, deixa de viver. Mas o pior mesmo é que o motoqueiro, quando anda distraído, deixando de aproveitar o momento, fica parecido com um motorista de carro. Arghh!

Ultimamente tenho estudado bastante sobre o motoqueirismo. Tenho interesse em aprender como as várias facetas do nosso mundo influenciam e são influenciadas pelas motos: psicologia, cultura, jornalismo, sociologia, turismo, guerra, tecnologia, indústria, saúde, trabalho, trânsito e mercado. Assim como andar de moto, estudar também carece de muito cuidado. Cuidado para não deixar que o acúmulo de conhecimento seja mais importante que o aprendizado. De nada vale concorrer com uma enciclopédia para ver quem sabe mais. O processo de aprendizado é que cria as novas visões que nos permitem agir. Conhecimento é coisa morta, aprendizado é a vida.

Quando o dia a dia está muito cheio de projetos e preocupações só para o futuro, é hora de andar mais devagar, subir na moto, escolher uma estrada de terra cheia de curvas e serras, sentir o cheiro da mata e olhar para a paisagem. A mesma coisa com os livros. Quando o estudo começa a virar um grande projeto de acúmulo de conhecimento para o futuro, é hora de pegar algum livro especial para lembrar que o aprendizado está no presente.

Para fazer a mente andar mais devagar e com mais liberdade para escolher o caminho, eu gosto de ler sobre aventureiros de moto. Com eles eu aprendo a sempre dar muito valor ao novo e à opinião das pessoas que encontro por aí. Ainda bem que há muita coisa escrita por viajantes. Só na minha estante tenho mais de 50 livros. Todos são diferentes, pois cada viagem é única em suas experiências e consequências. Eu prefiro viagens solitárias, feitas por amadores de moto e profissionais da vida.

Então, já cansado de tanto estudar sobre motos para adquirir conhecimento para projetos futuros, comecei a perambular pela minha biblioteca à procura de um livro tranquilo para ler. O escolhido foi “The Road Gets Better from Here” (A Estrada Melhora Daqui Para Frente), que eu já tinha começado a ler um monte de vezes. Eu ganhei esse livro no natal de 2008. Logo na primeira página tem uma dedicatória da Renata.

Que em 2009 você possa alcançar seus sonhos. Que este livro te inspire na construção do seu próprio livro. Acho que é das suas viagens de moto que o escritor dentro de você vai desabrochar. Breve terá um companheiro de viagens, dentro ou fora da minha barriga.

Foi mais ou menos o que aconteceu. De lá para cá, o Dante nasceu, viajamos para o Atacama e eu tenho escrito muito mais no blog. Ainda não publiquei um livro, mas tudo a seu tempo. Por falar em blog, foi naquele verão, nas águas de Japaratinga, que eu e a Renata conversamos sobre qual seria o melhor formato. Até ali, eu tinha um blog só para dar notícias dos passeios e colocar algumas fotos. O novo blog seria um lugar para escrever minhas impressões sobre o motoqueirismo, falar sobre o que eu tinha estudado, inventar algumas ficções e relatar nossas viagens com mais calma.

Voltando ao livro, quem escreveu foi Adrian Scott. Conta uma viagem de 20.000 km que ele fez em 2005 com uma Kawasaki KLR 650, uma moto tipo a nossa XT660, muito usada pelo pessoal dos EUA. O cara, um australiano, tinha na época 37 anos. Típica “crise de meia-idade”, que neste caso fez um cara que nunca tinha andado de moto antes percorrer sozinho as estradas mais desertas da Terra. Se bem que crise é o nome errado. É a mesma coisa que dizer que o Renascimento foi ruim para a humanidade, que o conformismo e a inércia da Época das Trevas é que eram bons.

A viagem de três meses começou em Magadan, no extremo leste da Rússia. De lá pegou a “Road of Bones” (Estrada dos Ossos) até Khandyga. A estrada tem esse nome porque os ossos dos trabalhadores, em geral prisioneiros políticos, que a construíram eram enterrados por lá. Essa estrada também aparece em “Mondo Enduro” (livro de 2006 sobre uma viagem de 1995) e “Long Way Round” (publicado em 2005, contando a viagem de 2004). Logo no primeiro dia ele já levou um tombaço, que o deixou com a perna machucada por um bom tempo. Mas não havia volta. Pegou muita chuva e lama na Rússia. Mas sempre pôde contar com a ajuda de caminhoneiros.

Rota da Seda. Adrian Scott não percorreu a parte mais ao leste, na China. Esse trecho ele fez pela Rússia.

O seu objetivo mesmo era percorrer a “Silk Road” (Rota da Seda), um conjunto de estradas milenares nas quais as caravanas transportavam produtos da China, Índia, Pérsia e Europa. Ele era apaixonado pelos monges, mercadores e saqueadores que tinham passado por ali. A curiosidade tinha aparecido ao ler na infância as 1001 Noites de Sherazade, as aventuras de Marco Polo e as conquistas de Genghis Khan.

O livro é bem dividido entre os nove países por onde ele passou: Rússia (100 páginas), Cazaquistão (20), China (30), Quirguistão (15), Tadjiquistão (85), Uzbequistão (60), Turcomenistão (30), Irã (30) e Turquia (30). Do ponto de vista da geografia, dá para dividir o livro em três partes: as estradas enlameadas da Rússia, os desertos da China (Taklamakan) e depois do Turcomenistão (Karakum), e as grandes montanhas Pamir, o teto do mundo, que ele conheceu a partir do Quirguistão. Ele cita também as cordilheiras Tien Shan e Altai.

Os três temas principais são a vitória sobre desafios pessoais, as pessoas que ele encontra no caminho e as mudanças que uma aventura dessas traz ao viajante. Em geral, quanto mais pobre o lugar onde ele passava, mais as pessoas estavam dispostas a dividir a comida e a casa com ele. Só que nem sempre era assim, pois alguns lugares em que a ditadura ainda reinava, as pessoas eram muito desconfiadas. Mas, independente da região em que ele vagava, sempre que precisou de algo importante, como combustível, conhecimento, comida ou manutenção na moto, havia alguém para ajudar. Coisa que fica bem mais fácil quando se está de moto, sozinho, andando devagar e se tem a humildade dos iniciantes.

Logo no final da viagem ele perdeu a máquina fotográfica, que estava com fotos de mais da metade da viagem. Isso o deixou muito deprimido. Bobagem. O livro descreve tão bem a paisagem que dá para imaginar todos os lugares por onde ele passou. De repente, se ele ainda tivesse as fotos, não teria escrito um livro tão legal.

Viver é perigoso. Por isso é preciso tomar muito cuidado. Cuidado para não deixar o corpo parado ou a mente estática, mirando só o futuro que nunca chega. Pegue a sua moto, vá dar uma volta. Pegue um livro bem escrito, aprenda algo novo. Tome muito cuidado, pois só se vive uma vez, só se vive no presente.