Mamute (2010)

Recife ainda tem um cinema legal. Fica nas Graças, o Cine Rosa e Silva. Para começar bem, as motos não pagam estacionamento. A programação dos filmes é colada nas paredes, sem aqueles monitores de alta tecnologia e de baixa personalidade. As salas são médias, cerca de 150 lugares. Não há lugar marcado. Você escolhe a cadeira na hora que entra na sala, de acordo com o seu estado de espírito. O ingresso é bem em conta. Legal.

Meu primeiro filme lá foi há cerca de um mês. Em geral eu não gosto de filmes franceses, que para mim ficam entre o cinema e a literatura, mas pegam só as desvantagens das duas artes. Só que, como o filme era de moto, dei um desconto. Mamute, de 2010, com Gérard Depardieu.

O título é uma referência ao modelo de moto que o protagonista Serge Pilardosse pilota, uma Münch Mammoth. Essa moto usava um motor automotivo de quatro cilindros da NSU e pesava quase 300 kg, o que era bastante incomum na época da sua produção. Embora usasse um motor de carro, a NSU tinha uma longa história na produção de motos, então estamos em casa. Talvez o título também faça alguma alusão à memória de Serge ou ao grande peso que carregava em sua vida, mas prefiro ficar no concreto.

O filme começa quando Serge se aposenta. Para receber a pensão, ele precisava entregar comprovantes de onde havia trabalhado, mas não tinha aqueles papéis. Então, tirou a sua moto da garagem, onde tinha ficado guardada por muito tempo, e pegou a estrada em busca do que lhe faltava. É um filme sobre a chegada da idade, de um homem muito amargurado que precisa voltar ao passado para se perdoar. O legal é que não fica defendendo que vale a pena viver no que já passou. Ao contrário, é um filme sobre a aceitação e o deguste do presente.

O filme é meio parado, por isso eu teria gostado mais de ler um livro com essa mesma história. Mas tudo bem. Só de ter conhecido esse cinema já valeu a pena. Além disso, o Gérard Depardieu atuou em um dos meus filmes preferidos: “Cyrano de Bergerac” (1990), que conta a história de um soldado francês muito forte, inteligente e corajoso. Mas que tinha duas grandes falhas: não conseguia se declarar para seu grande amor, sua prima Roxane, e não aceitava nenhum tipo de compromisso com os poderosos. Era um homem extremamente solitário e muito temido, que tinha que lutar batalhas quase que diariamente. Claro que se dava mal em boa parte das vezes, porque os imbecis com suas fofocas e joguetes sempre são a maioria. Mas para algumas pessoas não há escolha: a integridade está acima de tudo, mesmo que se tenha que viver como o mais completo burro social.

Ambos trazidos à vida por Depardieu, Cyrano e Serge não podiam ser dois personagens mais diferentes. Um é ativo, o outro contemplativo. Um é criativo, o outro é passivo. Um é temido, o outro ignorado. Um é jovem, o outro velho. Mas há algo que liga os dois: autenticidade. Por isso, mesmo que eu não tenha me entretido muito com esse filme Mamute, tive mais alguns exemplos sobre como é importante viver com integridade. Recomendo os três: assistir ao filme Mamute, conhecer o Cine Rosa e Silva e, principalmente, ser inspirado irremediavelmente por Cyrano de Bergerac.